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Emirados Árabes alertaram Netanyahu sobre 7 de Outubro, mas premiê não agiu — Haaretz

O primeiro-ministro teria recebido a informação em antecipação do ataque semanas antes de sua execução, mas não teria repassado a chefes de segurança.
Emirados Árabes alertaram Netanyahu sobre 7 de Outubro, mas premiê não agiu — Haaretz

Cerca de dez dias antes do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu recebeu uma advertência direta do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed, alertando que Yahya Sinwar, então líder do grupo palestino em Gaza, planejava uma grande operação militar contra Israel.

Netanyahu não teria repassado a informação aos chefes de segurança e permaneceu inerte, segundo revelou a investigação dos jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval publicada com exclusividade pelo jornal israelense Haaretz nesta terça-feira (8).

Durante uma ligação telefônica de 45 minutos no fim de setembro de 2023, o presidente emiradense expressou preocupação de que a operação iminente não apenas causaria derramamento de sangue, mas também desestabilizaria toda a região e prejudicaria os Acordos de Abraão.

Para sua surpresa, Netanyahu teria reagido com relativa calma, assegurando que Israel estava preparado para qualquer cenário e que o Hamas provavelmente atuaria na Cisjordânia, não em Gaza.

  • O Acordos de Abraão são uma série de acordos bilaterais mediados pelos EUA durante o primeiro mandato de Donald Trump, em 2020, entre Israel e países árabes, visando normalização de relações diplomáticas na região.

Avisos claros

A advertência de bin Zayed se originou de mensagens enviadas pelo próprio líder do Hamas.

Em meados de setembro de 2023, frustrado com a paralisia nas negociações para libertação de prisioneiros palestinos, Sinwar se encontrou com um mediador do partido Fatah, que controla a Cisjordânia, identificado como "Coal Eyes" ["Olhos de Carvão", em português].

Sinwar teria alertado ao mediador que preparava uma "zilzal", termo em árabe para "terremoto".

"Diga aos israelenses para esperarem um zilzal. Se não avançarem, estou preparando uma surpresa enorme para eles", declarou.

O mediador teria relatado a situação a um assessor palestino do presidente dos Emirados, que saíra anos antes de Gaza para viver em Abu Dhabi. 

"Se ele diz zilzal, significa guerra", interpretou o assessor.

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Num segundo encontro em meados de setembro, Sinwar foi ainda mais explícito. "Transmita a mensagem de que estou preparando a mãe de todas as surpresas. Uma operação terrível. Algo extraordinário".

Negligência deliberada

"Olhos de Carvão" e o assessor emiradense repassaram o aviso ao Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel, em 15 de setembro, mais de três semanas antes da operação do Hamas.

Ronen Bar, então chefe da agência de segurança, solicitou contato imediato com Netanyahu, e uma reunião de segurança foi convocada em 17 de setembro, com participação do ministro da Defesa Yoav Gallant e representantes da Inteligência Militar.

Bar teria recomendado preparativos defensivos robustos, mas nenhuma decisão concreta foi tomada.

Além de bin Zayed, o chefe da inteligência egípcia, general Abbas Kamel, também contatou Netanyahu naqueles dias, alertando sobre "algo incomum, uma operação terrível" sendo preparada pelo Hamas.

Novamente, o premiê respondeu que Israel estava "no controle" da situação em Gaza e que o problema real estava na Cisjordânia.

Bar e o ex-chefe do Estado-Maior de Israel, Herzl Halevi, confirmaram ao Haaretz que não foram informados da ligação de bin Zayed.

"Se soubéssemos dos avisos, há uma chance de que isso teria dado mais peso à primeira mensagem que recebemos de Sinwar", afirmou um alto oficial do Shin Bet à reportagem.

"Talvez tivéssemos juntado as peças e chegado a uma conclusão completamente diferente".

Negociações frustradas

O aviso de Sinwar surgiu no contexto de negociações secretas para uma trégua de longo prazo entre Israel e Hamas, iniciadas em 2023 com anuência de Netanyahu.

As conversas envolviam o afrouxamento gradual do bloqueio a Gaza, criação de zonas comerciais e liberação de prisioneiros palestinos em troca de israelenses mantidos pelo Hamas.

No final de agosto de 2023, Netanyahu aprovou a liberação de 30 prisioneiros palestinos, mas adiou repetidamente a convocação do comitê ministerial necessário para autorizar o acordo.

Um integrante da equipe do Shin Bet que preparava as negociações afirmou que o acordo "ficou travado semana após semana".

Sinwar teria perdido a paciência e cortado todo contato com a equipe de negociação no início de setembro.

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Controvérsia sobre versões

O gabinete de Netanyahu negou veementemente o relato, classificando-o como "uma mentira absoluta", afirmando que o premiê "não falou com o presidente dos Emirados Árabes Unidos durante o período em questão e não recebeu nenhum aviso dele".

O Haaretz tentou contato com bin Zayed para comentários, mas não obteve resposta.

Sob pressão crescente sobre sua conduta em relação ao 7 de outubro, Netanyahu alega em entrevistas recentes que oficiais de segurança deliberadamente optaram por não acordá-lo na manhã do ataque, afirmando que teria mobilizado imediatamente o exército se tivesse sido avisado.

Críticos caracterizaram essas declarações como tentativas de fugir de responsabilização e desviar culpa.

O ex-primeiro-ministro e candidato ao cargo de premiê Naftali Bennett afirmou nas redes sociais que o relato do Haaretz é verdadeiro, e que "Netanyahu tem responsabilidade pessoal e direta pelo fracasso que levou à morte de milhares de israelenses sob sua supervisão", embora não tenha explicado como sabia disso.

"Mais e mais sinais apontam para a mesma conclusão: Netanyahu conduziu Israel cegamente ao desastre de 7 de outubro", escreveu Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior e rival de Netanyahu nas eleições.