PT aciona STF por suspeita de interferência de ex-assessor de Milei nas eleições

Rui Falcão pediu cooperação com a Bolívia para preservar provas apreendidas em imóveis ligados a Fernando Cerimedo.

O Partido dos Trabalhadores (PT) vê indícios de interferência nas eleições brasileiras de 2026 envolvendo o argentino Fernando Cerimedo, ex-assessor de comunicação de Javier Milei. O deputado Rui Falcão (PT-SP) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) cooperação jurídica com a Bolívia para acessar provas apreendidas em uma investigação no país. A informação foi publicada pelo portal Poder360 nesta quinta-feira (27).

Entre os elementos citados pelo partido estão a apreensão de uma "mini granja de bots" em imóveis ligados a Cerimedo, uma transmissão recente com Eduardo Bolsonaro (PL) e o depoimento da ex-esposa do argentino. Falcão quer apurar se a estrutura de automação foi usada para produzir ou disseminar conteúdo relacionado ao processo eleitoral brasileiro de 2026.

A manifestação foi apresentada como notícia de fato superveniente vinculada ao inquérito que originou a denúncia contra o núcleo golpista do governo Jair Bolsonaro (PL). O documento foi endereçado ao ministro Alexandre de Moraes.

Investigação na Bolívia

Cerimedo foi detido na Bolívia em 18 de agosto. Sua prisão preventiva foi decretada três dias depois em uma investigação sobre um atentado contra sua ex-namorada, a advogada Nadia Beller.

Para Falcão, os equipamentos podem conter elementos que faltaram à Procuradoria-Geral da República (PGR) na apuração sobre a atuação de Cerimedo após as eleições de 2022, como comunicações com outros investigados, entre eles o ex-ajudante de ordens Mauro Cid.

Atuação de Cerimedo

Cerimedo atuou como assessor de comunicação de Javier Milei durante a campanha presidencial argentina de 2023. No Brasil, ganhou projeção pela disseminação de afirmações falsas sobre as urnas eletrônicas.

Em 2024, ele foi indiciado pela Polícia Federal por participar da disseminação da narrativa de fraude nas urnas após as eleições de 2022, mas não chegou a ser denunciado pela PGR. A acusação registrou que não conseguiu esclarecer se ele atuou apenas como vetor de propagação ou se tinha domínio sobre o esquema, e o caso foi remetido a autos separados.

Falcão também cita uma transmissão ao vivo de Cerimedo com Eduardo Bolsonaro em 23 de julho para questionar a confiabilidade do sistema eletrônico de votação. A live ocorreu dois dias depois de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, se reunir com diplomatas estrangeiros para repetir afirmações que descredibilizavam as urnas.

Pedidos ao STF

Na avaliação de Falcão, a transmissão de julho e a apreensão da estrutura de bots em agosto, já no início da propaganda eleitoral, justificam uma apuração sobre eventual uso do sistema no pleito brasileiro.

O documento pede que o caso seja encaminhado ao mesmo inquérito que investiga os atos golpistas e que a Bolívia preserve os equipamentos e dados apreendidos. Também solicita cópias de laudos, inventários e informações já analisadas pelas autoridades bolivianas.

Falcão ainda pede a investigação de mensagens, pagamentos, contratos e clientes relacionados às eleições de 2022 e 2026, além da identificação de contas, endereços de internet e conteúdos ligados ao Brasil. O documento solicita também a retomada da investigação sobre Cerimedo e o envio ao Tribunal Superior Eleitoral e à Procuradoria-Geral Eleitoral de eventuais provas relacionadas às eleições.

A base jurídica citada é o acordo de assistência jurídica mútua em matéria penal firmado entre países do Mercosul, Bolívia e Chile, que permite o compartilhamento de provas entre as autoridades centrais de cada país.