Notícias

Colonialismo alimentar? Multinacionais vendem produtos piores e rejeitam rótulos com alertas na Índia

Documentos e gravações revelam como Coca-Cola, Nestlé e outras empresas pressionaram autoridades da Índia com sucesso a abandonar proposta obrigando rótulos coloridos com avisos de saúde, enquanto mais de 450 milhões de indianos poderão sofrer de obesidade em 2050.
Colonialismo alimentar? Multinacionais vendem produtos piores e rejeitam rótulos com alertas na ÍndiaGettyimages.ru / Debarchan Chatterjee/NurPhoto

Na Índia, o mesmo refrigerante contém três vezes mais açúcar e corantes artificiais do que na Europa. Entretanto, a Autoridade de Segurança e Padrões Alimentares da Índia, país onde 450 milhões de pessoas poderão sofrer de obesidade ou sobrepeso até 2050, abandonou a proposta de implementar rótulos coloridos na parte frontal das embalagens alertando os consumidores, informou a Reuters na terça-feira (25).

A decisão, revelada por documentos e gravações obtidas pela Reuters, foi tomada após intensa pressão de gigantes como Coca-Cola e Nestlé, que argumentaram que os alertas seriam "confusos e ineficazes".

O caso está sendo analisado pela Suprema Corte indiana, que criticou a posição do órgão, afirmando que "o mundo deve saber que a Índia está muito preocupada com a saúde de seus cidadãos".

Diferenças e lobby de multinacionais

A resistência de empresas na Índia contrasta com as práticas das mesmas empresas em mercados desenvolvidos. A Coca-Cola adotou voluntariamente rótulos com "semáforos nutricionais", similares à proposta indiana, em alguns países europeus, mesmo sem obrigação legal.

A Nestlé, por sua vez, só recentemente começou a vender o cereal instantâneo para crianças Cerelac sem adição de açúcar na Índia, após ativistas denunciarem que o produto, comercializado no país com o ingrediente adicionado há 50 anos, está disponível no Reino Unido desde 2013.

O lobby das multinacionais tem sido eficaz. Segundo a Reuters, estima-se que 80% dos produtos do mercado indiano de alimentos processados, avaliado em US$ 100 bilhões, poderiam ser classificados como ricos em açúcar, gordura e sal, o que significaria uma enxurrada de alertas vermelhos nas prateleiras.

Uma executiva sênior da Coca-Cola na Índia, Mili Bhattacharya, argumentou durante a reunião citada pela mídia, que "é muito simplista" acreditar que um consumidor verá um ícone no rótulo e mudará sua dieta. A executiva acrescentou que os médicos indianos já fazem um bom trabalho ensinando aos pacientes que alimentos que evitar. A Coca-Cola, procurada pela reportagem, não comentou.

Ativismo e avanços na batalha

As diferenças nas fórmulas também alimentam um movimento crescente de influenciadores nas redes sociais. Revant Himatsingka, conhecido como "Food Pharmer", acumula cerca de 5 milhões de seguidores em redes, denunciando a discrepância entre os produtos vendidos na Índia e no exterior.

Em uma postagem ele mostrou que o KitKat indiano tem somente 4,5% de cacau sólido, enquanto o australiano contém pelo menos 22%. Já na Fanta indiana ele detectou "10 colheres de chá de açúcar", em comparação com os 4 na bebida francesa.

A PepsiCo conseguiu na Justiça derrubar um vídeo em que ele criticava o alto teor de açúcar em uma de suas bebidas, mas meses depois o regulador indiano determinou que a empresa retirasse o rótulo de "bebida energética" do produto, popular entre os jovens, em até 90 dias.