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Superar complexos e liderar mudanças: economista lista desafios para o Brasil na 'Era das Trevas'

Paulo Nogueira Batista, ex-diretor executivo do FMI e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, defendeu que o país deve repensar pacifismo e buscar autossuficiência econômica para enfrentar os tempos modernos, marcados pela ascenção do racismo, indiferença ao genocídio em Gaza e a decadência e belicismo do "Ocidente".
Superar complexos e liderar mudanças: economista lista desafios para o Brasil na 'Era das Trevas'Imagem gerada por inteligência artificial

O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista, ex-diretor executivo para o Brasil e outros países do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, publicou um artigo na revista "Russia in Global Affairs" neste domingo (23). No texto, o especialista analisa os desafios que o Brasil precisa encarar em um cenário global que ele classifica como "o mais perigoso desde a Segunda Guerra Mundial".

Para o economista, o país precisa urgentemente repensar sua tradição pacifista e buscar autossuficiência econômica para navegar, bem como assumir o papel de líder em um "Segundo Renascimento".

Nogueira Batista identifica quatro fenômenos com que o mundo e o Brasil precisam lidar: a ascensão de um mundo multipolar; o declínio relativo do Ocidente, agravado pela decisão dos EUA de abrir uma frente tripla contra Rússia, China e Irã; a recusa do Ocidente em aceitar esse declínio, recorrendo à força militar; e o perigo latente de subestimar a capacidade destrutiva dos EUA.

Desafios para o Brasil

Superar complexos

O primeiro desafio que Nogueira Batista nomeia é o psicológico, que ele classifica como o "complexo de inferioridade", que impede o Brasil de "ocupar o espaço que merecemos no cenário internacional".

Para ele, o Brasil precisa abandonar a ilusão de que a diplomacia e o "soft power" resolverão as disputas internacionais. "Para viver em paz, precisamos nos preparar para a guerra", defendeu, citando a máxima romana. Segundo ele, o país deve tentar alcançar autossuficiência em áreas importantes, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente de "potenciais agressores".

Assumir um papel novo

O economista acredita que, por outro lado, o Brasil, por sua tradição pacifista e diversidade interna, pode liderar um "Novo Renascimento".

"Talvez nossa vocação histórica seja iniciar, junto com outros países, algo como um Segundo Renascimento, para nos libertarmos das ameaças e catástrofes da 'Era do Eclipse' em que entramos", afirmou, acrescentando que para cumprir esse papel é preciso superar o primeiro desafio, ou seja, sentimento de inferioridade e pacifismo.

Fantasma do racismo e Israel como "sintoma de colapso"

Nogueira Batista também destacou o racismo estrutural como caraterística da crise atual.

"O mundo pode ser dividido em duas partes: o Ocidente coletivo e o Sul Global", afirmou, apontando que a primeira representa apenas 12% da população mundial, majoritariamente branca. 

Essa dinâmica e o racismo mais explícito alimenta o que ele chama de "novo fascismo xenófobo", representado pela ascensão de partidos de direita na Europa e nos EUA, enquanto os imigrantes, especialmente muçulmanos, tornam-se bodes expiatórios para a crise ocidental, observou o especialista.

Ao mesmo tempo, ele destacou que os povos que já foram colonizados ou parcialmente colonizados "não reconhecem mais a superioridade da raça branca" e "não aceitam esquemas de exploração coloniais ou neocoloniais".

"Se o século XVIII foi celebrado como a 'Era do Iluminismo' [na Europa], então o século XXI, a julgar pelas suas primeiras décadas, ficará marcado na história como a 'Era da Obscuridade' ou a 'Era das Trevas'", opinou.

Batista aponta Israel e o genocídio de palestinos como o "sintoma do colapso" da civilização ocidental, classificando a situação na região a "maior crise humanitária do século XXI".

"O que está acontecendo na Palestina é o mais recente genocídio colonial perpetrado por europeus brancos contra pessoas de cor", afirmou o economista, destacando que "o apoio político, econômico e militar a Israel pelos EUA e de grande parte da Europa teve um preço alto", já que "ninguém mais acredita na existência de princípios e valores no Ocidente".