Espancamento em Copacabana expõe engrenagem da segurança clandestina no Rio

Crime motivado por acusação falsa de furto revela como grupos armados cobram por proteção em ruas cariocas sem respaldo legal.

Dias após Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, ser acusado, julgado e executado como ladrão de bicicleta nas ruas de Copacabana, a imprensa e o debate público voltaram sua atenção ao mercado da segurança privada na cidade do Rio de Janeiro.

Cláudio foi morto a pauladas por um segurança, com apoio de dois entregadores de aplicativo, no dia 12 de agosto. O responsável pelos golpes, Davi Santos Machado, confessou à polícia que recebia R$ 1.500 mensais para, ao lado de outros quatro homens, controlar informalmente um pedaço da Rua Barata Ribeiro.

A segurança privada brasileira vive expansão regulada, mas convive com áreas de ilegalidade presumidamente subnotificadas. Em bairros como Copacabana, o jornal O Globo relata a presença reiterada de homens com trajes pretos e postura típica de seguranças, alguns sentados em cadeiras nas calçadas, em pontos comerciais.

A Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist), sindicato patronal do setor, calcula que 53.454 vigilantes atuam regularmente no estado; na ilegalidade, porém, trabalhariam mais de 100 mil, de acordo com o jornal.

Esforços de regularização

A prática, batizada de forma explícita pela legislação como clandestina quando envolve rondas em espaço público, só é permitida em situações específicas, como segurança pessoal, escolta armada e transporte de valores.

Em junho, o presidente Lula assinou decreto que regulamenta a Lei nº 14.967/2024, o Estatuto da Segurança Privada, substituindo a legislação de 1983, considerada ultrapassada. A norma fortalece a fiscalização, amplia a segurança jurídica de empresas e trabalhadores e cria mecanismos contra a clandestinidade, além de ampliar a atividade para segurança pessoal, gerenciamento de riscos e monitoramento eletrônico.

A alteração passou a responsabilizar também os contratantes de serviços irregulares; no caso de Cláudio, a polícia já identificou comerciantes que teriam pago pela vigilância do grupo de Davi.

Ainda assim, o diretor do Sindicato dos Vigilantes do Rio, Leandro Siqueira, aponta que a fiscalização segue insuficiente, já que a própria Delegacia de Segurança Privada (DELESP) da Polícia Federal carece de efetivo. Para o delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP do Rio, moradores confiam erroneamente na legitimidade desses grupos, "inflamados pelas postagens" de grupos de alerta em redes sociais, quando deveriam acionar a polícia.

Segundo o Anuário da Segurança Privada 2026 da Fenavist, o setor formal faturou R$ 50,5 bilhões em 2025, alta de 3,98% sobre 2024. Em março de 2026, 588.420 vigilantes atuavam regularmente no país, terceiro ano seguido de crescimento, distribuídos em 4.809 empresas autorizadas.