O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu neste domingo (16) o tom de sua campanha à reeleição em um ato no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), marcado pelo resgate de sua trajetória política e por ataques à direita. Ao justificar a busca por um novo mandato, Lula afirmou que pretende continuar na política para impedir que seus adversários voltem ao poder.
"Enquanto eu for vivo, não vou permitir parar de lutar e deixar que a direita", declarou. Na sequência, o presidente associou a disputa eleitoral a diferenças de visão sobre o futuro do país e criticou a atuação da direita em áreas como saúde, educação, moradia e emprego.
Lula também voltou à pandemia de covid-19 para atacar seus adversários. Ele acusou a direita de ter tratado com descaso as pessoas que morreram durante a crise sanitária e citou a falta de vacinas como exemplo do que considera uma política irresponsável.
Ao defender o desempenho de seu governo, o presidente afirmou que suas administrações criaram 10,1 milhões de empregos formais nos últimos três anos e meio, contra 2 milhões que, segundo ele, foram gerados durante os mandatos de seus adversários. Para Lula, a geração de empregos é parte de uma estratégia mais ampla de investimento social. "Isso é pensar no futuro", resumiu.
Segurança pública
A segurança pública ocupou uma parte importante do discurso. Lula atacou a política de armas adotada durante o governo de Jair Bolsonaro e comparou as medidas de desarmamento de seus primeiros governos à expansão da venda de armas nos anos seguintes.
O presidente afirmou que, durante suas administrações, cerca de 500 mil armas foram recolhidas. Segundo Lula, durante o governo Bolsonaro foram distribuídas ou vendidas mais de 1 milhão de armas, além de cerca de 1 bilhão de balas.
A crítica foi acompanhada por uma cobrança para que o combate ao crime não se concentre apenas nas periferias. Lula afirmou que é fácil combater criminosos nas favelas, mas que o enfrentamento deveria alcançar também os responsáveis pelo comando das organizações.
"Agora o cara que manda está no apartamento de cobertura", afirmou.
Lula também apresentou uma proposta para a área. Caso a PEC da Segurança Pública seja aprovada, disse que pretende criar um Ministério da Segurança Pública para dividir responsabilidades entre União, estados e municípios. A ideia, segundo o presidente, é combater tanto os criminosos que controlam territórios pobres quanto aqueles que estão por trás das estruturas de comando.
Água como símbolo do Nordeste
Ao falar sobre a transposição do rio São Francisco, Lula voltou a relacionar sua trajetória pessoal às políticas de infraestrutura e ao Nordeste. O presidente lembrou que a ideia de levar água para regiões do semiárido remonta ao século XIX e afirmou que conseguiu realizar um projeto que Dom Pedro II não teria conseguido concretizar.
O tema ganhou um tom pessoal quando Lula relembrou a experiência de quem cresceu no Nordeste convivendo com a falta de água potável. Ele descreveu situações em que famílias precisavam buscar água contaminada por fezes e urina de animais para levar para casa.
Por isso, afirmou que a obra tem um significado que vai além da infraestrutura. Lula disse que um nordestino que viveu essa realidade sabe "qual é o valor" de levar água para milhões de pessoas.
As origens do PT
O início do discurso também foi marcado por um resgate das origens intelectuais e políticas do PT. Lula mencionou nomes como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, apresentados por ele como intelectuais que ajudaram a construir as bases do partido.
O presidente também voltou a um episódio de sua trajetória envolvendo o sindicalista rural Wilson Pinheiro, assassinado no Acre. Lula contou que esteve no enterro do dirigente e, diante do caixão, afirmou estar cansado de chorar a morte de companheiros assassinados por latifundiários.
Foi nesse contexto, segundo o próprio presidente, que ele disse que "estava chegando a hora da onça beber água". No dia seguinte, trabalhadores mataram um fazendeiro apontado como suspeito da morte de Pinheiro.
Lula afirmou que acabou condenado a três anos e meio de prisão porque sua frase foi interpretada como uma "senha" para o assassinato. Décadas depois, classificou a acusação como "uma bobagem" e "uma mentira" e afirmou que esse episódio faz parte das versões negativas que, segundo ele, foram construídas ao longo de seus 47 anos de trajetória política.
Soberania sobre minerais críticos
Ao falar sobre o futuro do país, Lula também levou o discurso para a disputa internacional em torno das terras raras e dos minerais críticos, recursos estratégicos para setores como tecnologia, baterias e indústria de defesa. O presidente afirmou que o Brasil não deve escolher entre Estados Unidos e China, mas desenvolver capacidade própria para explorar e transformar suas riquezas.
Para Lula, o país precisa deixar de exportar os minerais em estado bruto e investir na formação de profissionais e na indústria capaz de transformar esses recursos em produtos de maior valor agregado. Ele citou como exemplos celulares, chips e baterias elétricas.
"Nós não queremos exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas prontas deles", afirmou.
O presidente também rejeitou a possibilidade de empresas estrangeiras controlarem a exploração desses recursos. Ao citar Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, Lula disse que nenhum desses países deveria explorar os minerais brasileiros.
"Ninguém vai explorar os nossos minerais. Nós é que vamos explorar em benefício do povo brasileiro", declarou.
Soberania e desenvolvimento
O discurso em São Bernardo combinou diferentes eixos que devem marcar a campanha de Lula: o resgate de sua trajetória política e das origens do PT, a defesa dos resultados de seus governos, o confronto com a direita e a defesa de um projeto de desenvolvimento baseado em soberania nacional.
A escolha do Estádio 1º de Maio reforçou essa narrativa: um dos principais símbolos da trajetória sindical que projetou Lula nacionalmente, o local serviu como cenário para o presidente apresentar a disputa pela reeleição como uma continuidade de sua trajetória política.