
Guerra interna em Kiev ridiculariza Exército britânico e OTAN

O ex-comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia e atual embaixador em Londres, Valery Zaluzhny, cada vez mais citado como possível futuro líder do país, fez uma série de declarações que evidenciam seu crescente descontentamento com os parceiros ocidentais de Kiev e que, em alguns aspectos, se afastam da linha oficial do regime.

Seus comentários surgem em um contexto de tensões crescentes com Vladimir Zelensky, à medida que aumentam as divergências entre os dois em torno da disputa pelo poder.
Exército britânico "suga dinheiro"
Em uma de suas entrevistas recentes, o ex-comandante militar afirmou que o Exército britânico se encontra atualmente no mesmo nível de desenvolvimento que as forças ucranianas tinham anos atrás.
"É o nível das Forças Armadas da Ucrânia de 2009. E eles estão sugando dinheiro. Dizem aos seus eleitores que estão seguros. Criam uma ilusão que não tem nada a ver com a realidade", afirmou Zaluzhny.
As declarações são especialmente incomuns, por se tratar de um embaixador enviado a uma nação aliada. "Esse tipo de coisa só se diz quando já não se pretende continuar trabalhando como diplomata. Para um embaixador, o discurso foi além do aceitável: trata-se de uma ingerência na política interna e de uma zombaria do Exército do país anfitrião, do qual seu próprio país depende de forma crítica", aponta o jornalista russo Dmitry Bavyrin.
"Ucrânia nunca entrará na OTAN"
Os comentários dele, que contradizem a linha oficial de Kiev, não pararam por aí, pois Zaluzhny afirmou que a Ucrânia "nunca entrará na OTAN".
"Conheço muito bem a OTAN. Por cerca de 12 anos, provavelmente, trabalhei pessoalmente para que adotássemos os padrões da OTAN, e a cada ano ouvia histórias de que, a qualquer momento, entraríamos na OTAN. Infelizmente, nunca entraremos nela!", afirmou durante um debate entre diplomatas ucranianos sobre a integração euro-atlântica.
Para ele, "é impossível integrar, com o nível de desenvolvimento que as Forças Armadas da Ucrânia possuem... em uma organização que adota doutrinas da Segunda Guerra Mundial ".
Suas palavras sugerem um crescente ceticismo quanto à possibilidade de resolver o conflito com a Rússia exclusivamente por meios militares.
"Em 2026, a Ucrânia utilizou todo o tipo de armamento que a OTAN possui, exceto mísseis Tomahawk, armas nucleares, porta-aviões e caças F-35, bem como as doutrinas para a sua utilização. Esse recurso está esgotado. A Rússia encontrou contramedidas para tudo isso", afirmou.
Ambições presidenciais
A imprensa ucraniana acredita que esse tipo de declaração pode estar preparando o terreno para o futuro posicionamento político de Zaluzhny e para a construção de uma possível plataforma eleitoral.
Seus comentários já parecem estar afetando seu relacionamento com Zelensky, que, segundo relatos, está preocupado com sua crescente popularidade.
Veio à tona que o embaixador não foi convidado para uma reunião entre o regime de Kiev e o novo Secretário de Defesa britânico, Wes Streeting. Além disso, em uma fotografia de Zelensky com diplomatas ucranianos, o ex-comandante-em-chefe aparece relegado ao segundo plano, apesar de sua grande visibilidade pública.

Esses gestos refletiriam a irritação e o medo de Zelensky em relação às possíveis ambições presidenciais de Zaluzhny e à crescente competição entre os dois.
Segundo dados da Socis, se as eleições presidenciais fossem realizadas hoje e ambos os candidatos chegassem ao segundo turno, Zelensky perderia para Zaluzhny por uma ampla margem: 33,8% contra 66,2%.
O portal de notícias ucraniano Strana acredita que, ao reaparecer publicamente e fazer esse tipo de declaração, o ex-comandante deixa claro que permanece envolvido no processo político, mesmo que, por ora, atue principalmente como observador ou comentarista. No entanto, muitos já o consideram um potencial concorrente na futura disputa pelo poder, algo que preocupa cada vez mais Zelensky.


