O primeiro porco clonado no Brasil foi eutanasiado no fim de julho depois de completar a etapa prevista de acompanhamento em um projeto da Universidade de São Paulo (USP) voltado ao desenvolvimento de xenotransplantes.
Segundo o pesquisador Ernesto Goulart, ouvido pelo portal g1 neste sábado (8), o procedimento estava previsto no protocolo, mas ocorreu dois meses antes do planejamento inicial devido à falta de recursos.
Nascido em abril de 2026 no Instituto de Zootecnia, em Piracicaba (SP), o animal foi posteriormente levado para instalações da USP, na capital paulista. Durante quase quatro meses, a equipe acompanhou seu desenvolvimento para avaliar os resultados da técnica de clonagem empregada no projeto.
"O objetivo era acompanhar a saúde dele para saber se era um animal saudável, se ia desenvolver até mesmo a competência sexual. E o animal cumpriu todos os requisitos. Ele era um animal muito saudável", explicou o professor, ressaltando que, apesar da antecipação, não houve prejuízo para os dados da pesquisa.
Após a eutanásia, o porco deverá passar por taxidermia e ser incorporado ao acervo do Museu de Zoologia da USP, em São Paulo. A equipe também obteve um segundo clone durante os experimentos, mas o animal morreu no dia seguinte ao nascimento, ocorrência apontada pelo pesquisador como parte dos desafios técnicos envolvidos no processo.
Recursos afetam continuidade do projeto
O trabalho começou entre o fim de 2019 e o início de 2020 e reúne diferentes instituições, com financiamento dos governos estadual e federal. De acordo com Goulart, restrições relacionadas aos recursos federais passaram a afetar despesas como manutenção da infraestrutura, pagamento de profissionais e alimentação dos animais.
No início de 2026, cerca de 40 profissionais participavam do projeto. Parte deles foi desligada após problemas nos repasses. "É um prejuízo muito grande porque é um ativo intelectual muito difícil de ser recuperado", alertou Goulart.
O Ministério da Saúde informou ao portal que o projeto faz parte do Programa Genomas Brasil e recebe recursos da pasta. Segundo o órgão, R$ 6,15 milhões já foram liberados de um total aprovado de R$ 11,6 milhões, por meio do CNPq. O Ministério acrescentou que "a liberação é condicionada ao cumprimento do cronograma de metas, à aprovação das prestações de contas das etapas já executadas e à disponibilidade orçamentária do exercício vigente".
Pesquisa mira xenotransplantes em humanos
Com o protocolo de clonagem testado, os pesquisadores pretendem avançar para a produção de porcos geneticamente modificados destinados aos estudos de transplantes de órgãos para humanos. Segundo Goulart, Estados Unidos e China desenvolvem tecnologias semelhantes há cerca de três décadas.
"A gente tem a possibilidade real de tornar o Brasil simplesmente o terceiro país no mundo a conseguir fazer um xenotransplante em humanos", avalia o professor da USP. A equipe, segundo o pesquisador, aguarda a liberação de recursos para prosseguir com as etapas seguintes do projeto.