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Argentina libera entrada da Marinha do Brasil em meio à crise entre os governos

Decreto publicado autoriza pessoal e meios brasileiros a participar do exercício naval Fraterno XXXIX, previsto para agosto em território argentino.
Argentina libera entrada da Marinha do Brasil em meio à crise entre os governosGaceta Marinera

A Argentina autorizou a entrada de militares e meios da Marinha do Brasil no território do país para a realização de um exercício conjunto, em meio à crise entre os governos de Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva. A medida consta no Decreto 717/2026, publicado nesta quinta-feira (6) no Boletim Oficial argentino.

O decreto permite a entrada de pessoal e equipamentos brasileiros para o exercício Fraterno XXXIX, que reunirá as Marinhas da Argentina e do Brasil. As atividades ocorrerão na Base Naval de Puerto Belgrano, na Base Naval de Mar del Plata e em áreas marítimas argentinas entre 13 e 24 de agosto de 2026. O ingresso do contingente brasileiro poderá ocorrer a partir de 10 de agosto.

A autorização foi assinada na quarta-feira (5), mesmo dia em que o governo argentino informou que não responderia com medidas contra o Brasil após a redução do nível das relações entre os países. A decisão do Itamaraty ocorreu depois de Milei chamar Lula de "ladrão", "corrupto", "presidiário" e "lixo socialista" durante um evento em São Paulo.

O chanceler argentino, Pablo Quirno, afirmou que Buenos Aires pretende manter o vínculo no nível definido pelo governo brasileiro. "Do nosso lado, não haverá nenhuma ação diplomática em resposta ao que o Brasil fizer. O Brasil tem todo o direito de tomar as decisões que tomar", declarou.

Exercício ocorre desde 1978

O Fraterno é realizado todos os anos desde 1978 e envolve treinamento entre as Marinhas da Argentina e do Brasil. Segundo o decreto, o objetivo é ampliar o treinamento conjunto e a capacidade de atuação das forças em operações navais, aeronaval e anfíbia, além de estabelecer procedimentos de planejamento e comando.

A edição de 2026 também incluirá treinamento de unidades argentinas em operações de guerra antissubmarina. O próprio governo argentino afirmou no decreto que a ausência no exercício afetaria o treinamento com a Marinha do Brasil, principalmente em atividades que envolvem operações conjuntas.

Em 2025, a 38ª edição do Fraterno foi realizada com participação argentina no Brasil. Ao final das atividades, representantes das duas Marinhas assinaram os documentos para organizar a edição seguinte, com a definição de que a Argentina receberia o Fraterno XXXIX.

Além do exercício com o Brasil, o texto autoriza forças argentinas a participar do exercício Viekaren XXVI, com o Chile, no Canal de Beagle, de 24 a 28 de agosto. Também permite a saída de pessoal e meios argentinos para os exercícios SIFOREX XIV e UNITAS LXVII, que ocorrerão no Peru em setembro.

No caso dos exercícios no Peru, o deslocamento argentino poderá ocorrer entre 14 de agosto e 14 de outubro. O decreto determina ainda que os gastos das Forças Armadas decorrentes das operações sejam cobertos pelo orçamento do Ministério da Defesa destinado ao Estado-Maior da Armada.

Crise entre Brasil e Argentina

A autorização para a entrada da Marinha brasileira ocorre enquanto Brasília e Buenos Aires enfrentam uma crise após declarações de Milei contra Lula. Na terça-feira (4), o Ministério das Relações Exteriores informou ao embaixador argentino no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, que os contatos passariam a ser conduzidos com o encarregado de negócios argentino.

O embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, também foi chamado para consultas e permanece em Brasília. A medida ocorreu após Milei participar de uma convenção do Partido Liberal em São Paulo e fazer declarações contra Lula e contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

O governo argentino classificou a redução das relações como uma decisão unilateral, descartando responder com uma medida do mesmo tipo. "Para brigar, são necessários dois", declarou Quirno, que também atribuiu o episódio a diferenças entre os governos. A autoridade não anunciou um pedido de desculpas pelas declarações de Milei.