Por que o deserto do Atacama, no Chile, tornou-se símbolo do descarte excessivo da indústria da moda global?

O deserto do Atacama, no Chile, é um cenário crítico de crise ambiental, servindo de depósito para montanhas de resíduos têxteis provenientes de diversos continentes. Segundo imagens de satélite da SkyFi, o volume de resíduos é tão grande que pode ser avistado do espaço.
Anualmente, cerca de 60 mil toneladas de roupas usadas chegam ao Chile. O fenômeno está diretamente ligado ao fluxo de mercadorias que passa pela Zona Franca de Iquique (Zofri), um polo comercial que, desde 1975, movimenta grandes volumes de importações de países como Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia.

O deserto do Atacama é uma área desolada conhecida por ser uma das regiões mais secas do planeta, com menos de 10 milímetros de chuva por ano em média. Como modelo de negócios, a região enfrenta um gargalo logístico e fiscal.
Como as roupas importadas não podem ser enviadas para aterros sanitários municipais, destinados apenas a resíduos domésticos, muitos comerciantes optam por rotas mais baratas, porém ilegais: o descarte em áreas desertas ou a queima de materiais. Segundo autoridades de Alto Hospicio, a vasta geografia de colinas e desertos dificulta a fiscalização e o combate ao descarte feito por caminhões.

A problemática é agravada pela natureza dos materiais: tecidos sintéticos podem levar séculos para se decompor. Sem sistemas formais de coleta têxtil e com fiscalização insuficiente, grande parte desse lixo acaba sendo queimada ao ar livre, liberando poluentes derivados de fibras sintéticas e corantes. Segundo pesquisadores, o volume de produção do modelo fast fashion supera drasticamente a capacidade de absorção dos mercados de revenda.
O fenômeno expõe a desigualdade na economia circular global. Enquanto o consumo desenfreado ocorre no Norte Global, o impacto ecológico é suportado por países importadores com infraestrutura de reciclagem limitada. O que antes era um problema de descarte local transformou-se em um testemunho visível dos limites do consumo contemporâneo.
