A Argentina afirmou nesta quarta-feira (5) que não adotará medidas diplomáticas contra o Brasil depois de o Itamaraty reduzir o nível das relações entre os dois países.
A decisão brasileira ocorreu após o presidente argentino, Javier Milei, chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "ladrão", "corrupto", "presidiário" e "lixo socialista" durante um evento político em São Paulo.
O chanceler argentino, Pablo Quirno, lamentou a medida e disse que o governo Milei continuará mantendo o vínculo bilateral no nível definido pelo Brasil. "Do nosso lado, não haverá nenhuma ação diplomática em resposta ao que o Brasil fizer. O Brasil tem todo o direito de tomar as decisões que tomar", declarou durante uma entrevista coletiva na Casa Rosada.
Chanceler descarta retaliação
Quirno classificou a redução das relações como uma decisão unilateral. "Para brigar, são necessários dois. A Argentina lamenta a decisão unilateral do Brasil. Acreditamos que esse não é o caminho", afirmou.
Questionado sobre um pedido de desculpas de Milei, o chanceler não anunciou qualquer iniciativa. Segundo ele, a crise decorre de diferenças políticas e ideológicas entre os governos. Quirno também afirmou que declarações foram feitas pelos dois lados ao longo dos últimos anos.
O ministro citou ainda a visita de Lula à ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner antes das eleições realizadas na Argentina em 2025. Para Quirno, Buenos Aires não tratou o episódio como interferência eleitoral nem respondeu por meio de medidas diplomáticas.
Decisão do governo brasileiro
Na terça-feira (4), o Ministério das Relações Exteriores informou ao embaixador da Argentina em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, que as tratativas passariam a ocorrer com o encarregado de negócios argentino. Raimondi também foi informado de que poderia retornar a Buenos Aires.
O embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, foi chamado para consultas e permanecerá em Brasília enquanto a crise não for resolvida.
As medidas foram adotadas depois das declarações de Milei durante a convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro. No mesmo evento, o presidente argentino chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de "lixo careca".
Declarações anteriores
Nos dias 2 e 3 de agosto de 2026, Milei voltou a chamar Lula de "ladrão" e "corrupto" em entrevista à emissora argentina LN+. O argentino afirmou que o presidente brasileiro "não é inocente" e declarou que "é muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que cometer o ato de roubar".
Em 27 de julho de 2026, Milei publicou cinco mensagens sobre Lula e acusou o governo brasileiro, sem apresentar provas ou indícios, de financiar uma suposta "campanha anti-Argentina" durante a Copa do Mundo.
Lula respondeu inicialmente às declarações com a pergunta "Quem é esse cara?". Depois, durante um ato do PSB, classificou a participação de Milei no evento do PL como uma "patacoada" e afirmou que não pretende transformar as divergências em um confronto entre os dois países.