'Russiagate' e 'Chinagate': o que Trump busca com acusações de interferência estrangeira?

O presidente voltou a denunciar uma suposta interferência estrangeira nas eleições dos EUA, desta vez apontando a China.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu-se à nação na quinta-feira (16), em um discurso que havia gerado grande expectativa após ele próprio anunciá-lo como uma mensagem "muito urgente".

No entanto, longe de apresentar medidas extraordinárias, o mandatário acusou a China de interferir nas eleições dos EUA, reacendendo uma antiga tradição política de Washington de denunciar supostas ingerências estrangeiras em seus assuntos internos.

Especialistas consideram que as novas acusações buscam mobilizar o eleitorado para as próximas eleições, embora alertem que elas entram em conflito com a política de distensão que o próprio Trump tentou manter em relação a Pequim durante seu segundo mandato.

Criando o "Chinagate"

Durante seu pronunciamento, Trump atacou a China, acusando o país de ter interferido nas eleições dos EUA.

Em particular, Trump afirmou que as provas mostram que "ao longo de vários anos — a partir do ciclo eleitoral de 2020 —, a República Popular da China realizou o que é considerado o maior vazamento de dados eleitorais da história". Segundo ele, isso teria resultado "na obtenção ilícita, por parte da China, de 220 milhões de registros de eleitores americanos".

O presidente detalhou que se trata de "nomes, endereços, números de telefone, preferências políticas e outros dados sensíveis" necessários para se inscrever no cadastro eleitoral ou para "realizar outras atividades ilícitas".

Nesse sentido, o presidente dos EUA afirmou que o suposto encobrimento dessa falha de segurança é ainda mais preocupante porque, de acordo com informações adicionais, a China também teria realizado outras atividades relacionadas às eleições para prejudicar seu primeiro governo e sua campanha em 2020. "Eles não queriam isso, simplesmente não queriam. Lutaram com unhas e dentes para impedir que Donald Trump vencesse, e com razão", declarou.

O precedente do "Russiagate"

Na última década, a política dos EUA também foi marcada pela narrativa da suposta interferência russa nas eleições presidenciais, conhecida como "Russiagate".

Em 2025, a então diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, afirmou que havia evidências irrefutáveis de que o governo de Barack Obama promoveu a "narrativa fabricada" de que a Rússia interferiu nas eleições presidenciais americanas de 2016, vencidas por Donald Trump em seu primeiro mandato.

"Há provas irrefutáveis que detalham como o presidente Obama e sua equipe de segurança nacional orientaram a elaboração de uma avaliação da comunidade de inteligência que sabiam ser falsa", declarou a autoridade durante uma coletiva de imprensa. "Eles sabiam que isso promoveria essa narrativa fabricada de que a Rússia interferiu nas eleições de 2016 para ajudar o presidente Trump a vencer, vendendo-a ao povo americano como se fosse verdadeira. Não era", acrescentou.

Gabbard acusou as autoridades da época de colaborar com "seus parceiros na mídia para promover essa mentira, com o objetivo final de minar a legitimidade do presidente Trump e lançar o que seria um golpe de Estado de vários anos contra ele e seu governo".

Rússia e China rejeitam as acusações

Moscou rejeitou as novas acusações do líder americano.

"O presidente faz referência a informações anônimas e sem provas dos serviços de inteligência de seu país sobre uma suposta interferência russa nas eleições presidenciais", declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

"Lembro que foram realizadas várias investigações nos EUA, e todas concluíram que a Rússia não interferiu nas eleições americanas. Essas investigações não foram conduzidas por nossas agências de segurança, mas pelas autoridades dos Estados Unidos", ressaltou.

Por sua vez, a Embaixada da China em Washington afirmou que Pequim nunca interferiu em um processo eleitoral dos EUA. "A parte chinesa sempre aderiu ao princípio da não ingerência nos assuntos internos de outros países. As eleições nos Estados Unidos são um assunto interno desse país, e seu resultado é determinado pelos votos do povo americano", declarou a representação diplomática.

Por que a narrativa da interferência reaparece?

Em entrevista à RT, Maxim Gabrielyan, analista do Instituto de Economia e Estratégia Militar Mundial da Escola Superior de Economia de Moscou, afirmou que a segurança é uma prioridade absoluta para Trump durante seu segundo mandato e que, agora, ele busca estender esse discurso também ao sistema eleitoral.

"Ele quer endurecer os mecanismos de verificação de identidade para impedir que imigrantes ilegais possam votar e garantir que apenas cidadãos americanos participem das eleições. A narrativa da interferência estrangeira serve como um argumento adicional para impulsionar essa agenda", explicou.

Avaliação semelhante foi feita pelo jornalista Valentin Bogdanov, que, em um artigo publicado pela RT, afirmou que a principal prioridade política de Trump antes das eleições é aprovar o SAVE Act, um projeto de lei que obrigaria os eleitores a apresentar documentos oficiais para poder votar.

Contradizendo sua própria estratégia

No entanto, Gabrielyan considera que as novas acusações contra Pequim contradizem a linha de política externa que Trump tem buscado construir desde seu retorno à Casa Branca.

"Uma das principais novidades de seu segundo governo é que, em essência, Trump reconhece tanto a Rússia quanto a China como grandes potências em pé de igualdade com os Estados Unidos e considera que elas devem ser tratadas com respeito. Isso não significa que devam ser aliadas nem que Washington tenha de fazer concessões, mas, sim, que é necessário manter uma relação baseada no respeito mútuo", afirmou.

Segundo o analista, essa visão buscava justamente reduzir o nível de confronto entre Washington e Pequim. "O problema é que transformar agora a China no principal alvo desses ataques pode acabar prejudicando seriamente essa estratégia de normalização das relações com Pequim", advertiu.

De qualquer forma, concluiu que ainda resta saber se o eleitorado americano responderá a um discurso que volta a apresentar a Rússia e a China como ameaças, após as tentativas de reduzir as tensões nos últimos meses.