Poder invisível rompe a 'química' entre Trump e Lula com tarifaço

As pressões de terceiros sobre Washington deixaram um gosto amargo na relação estreita que existia entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos.

A "química" parece ter desaparecido. A troca de elogios que até pouco tempo caracterizava a relação entre o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu homólogo americano, Donald Trump, foi abruptamente interrompida com o retorno do "porrete" tarifário.

Por enquanto, as demonstrações públicas de apreço entre os dois líderes perderam força. No mês de junho, quando a contagem regressiva para a entrada em vigor das novas tarifas impostas pela Casa Branca estava em andamento, Lula fez um último apelo ao seu homólogo, a quem havia chamado de "amigo" em dezembro de 2025.

"Trump, a questão é a seguinte: você disse que houve 'química' entre nós. Não foi você quem anunciou essa medida [tarifária], nem fui eu. Então você me deve uma reunião, e eu lhe devo outra", publicou o Correio Braziliense. A proposta, que ficou no ar, ainda não se concretizou.

Enquanto isso, a primeira reação partiu do Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Nesta quinta-feira (16), o chanceler Mauro Vieira afirmou que "não há nenhuma justificativa" para a nova tarifa de 25% imposta pelos EUA aos produtos brasileiros e acrescentou que as negociações conduzidas pela contraparte buscavam a "capitulação" de Brasília.

Rubio, o terceiro na discórdia

Até maio, Lula dizia manter uma relação "muito boa" e até de "amor à primeira vista" com seu homólogo republicano. No entanto, a entrada em cena do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, azedou a aproximação entre os dois presidentes.

Na quarta-feira (15), Rubio confirmou que o presidente dos Estados Unidos havia ordenado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) a imposição de uma tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras, conforme escreveu em sua conta na rede social X.

O secretário de Estado atribuiu integralmente a responsabilidade pela decisão de Washington a Lula. Segundo sua argumentação, o presidente brasileiro e seu governo "não negociaram com os EUA de boa-fé", razão pela qual considera que "suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros".

Em meio a esse confronto, Rubio deu sua alfinetada. "Durante o último ano, Lula colocou seu próprio ego acima da busca por um acordo que beneficiasse o povo brasileiro, e essas tarifas são o preço que ele deve pagar por isso", acrescentou.

No dia 3 de junho, o presidente sul-americano também havia lançado sua própria crítica ao secretário de Estado, ao classificá-lo como "inimigo mortal" da região e descrevê-lo como "um latino-americano frustrado".

O que desencadeou este capítulo da guerra tarifária?

O representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, afirmou em entrevista coletiva que, seguindo instruções de Trump, decidiu impor uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros após um processo de investigação iniciado em setembro do ano passado, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, e depois de várias negociações fracassadas com o Brasil.

Segundo a agência americana, determinadas medidas adotadas pelo Brasil foram consideradas "irracionais" e "prejudiciais" aos agricultores americanos. A USTR relaciona essas medidas ao "comércio digital e aos serviços de pagamento eletrônico", em especial ao uso do PIX, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central.

Também foram citadas as "tarifas preferenciais injustas" que, segundo a USTR, o Brasil aplicaria ao México e à Índia, além de questões relacionadas à "interferência no combate à corrupção", à proteção da propriedade intelectual, ao acesso ao mercado de etanol e ao desmatamento ilegal.

A "ganância" dos tecnoligarcas

A ofensiva tarifária foi classificada por Lula como um "marco lamentável", sem "qualquer justificativa".

O presidente lembrou que, embora o Brasil não "reconheça a legitimidade de investigações sem respaldo nas regras multilaterais do comércio", o país nunca "abandonou a mesa de negociações para defender os interesses nacionais". Além disso, rebateu cada uma das alegações da USTR contra o Brasil.

O chefe de Estado reafirmou que as "acusações contra o PIX e a regulamentação das plataformas digitais são infundadas". "O PIX é um patrimônio do nosso povo e uma referência internacional em infraestrutura digital pública", afirmou, ao mesmo tempo em que criticou os magnatas das big techs.

"No Brasil, não abriremos mão de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecnoligarcas. A liberdade de expressão não é um cheque em branco para a criminalidade", afirmou.

As big techs contra o Brasil

Em maio, o presidente brasileiro editou dois decretos para regulamentar o funcionamento das redes sociais e das gigantes da tecnologia. A regulamentação busca ampliar a responsabilidade dessas multinacionais pelos crimes cometidos por meio de suas plataformas.

Assim, por exemplo, as grandes empresas de tecnologia deverão remover imediatamente conteúdos ilícitos — sem necessidade de ordem judicial — após receberem notificação dos afetados. Da mesma forma, a legislação brasileira reforça a proteção de dados e proíbe a monetização de anúncios fraudulentos e da venda de produtos ilegais.

Segundo analistas, após a adoção dessas medidas, as gigantes da tecnologia intensificaram a pressão sobre Trump para que punisse o Brasil por adotar medidas soberanas que afetam diretamente seus interesses.

Por outro lado, o atual embate entre as big techs e o Estado brasileiro também pode influenciar as eleições de outubro. O pré-candidato presidencial de direita Flávio Bolsonaro já prometeu ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que, se vencer a disputa, garantirá que o PIX não tenha relação com formas de pagamento "não ocidentais", em referência à China.

Embora a tensão entre Brasília e Washington esteja em seu ponto mais elevado, ainda é possível que, como ocorreu em outras ocasiões, uma ligação entre os dois presidentes possa mudar novamente esse cenário.