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Cartas secretas de Roma revelam acobertamento de pedofilia neste país latino-americano

Os documentos apreendidos pela Procuradoria-Geral da nação mostram que os superiores gerais da Companhia de Jesus em Roma tinham conhecimento dos abusos e providenciaram o encobrimento de diários, fotografias e vídeos.
Cartas secretas de Roma revelam acobertamento de pedofilia neste país latino-americanoGettyimages.ru

As principais autoridades da Companhia de Jesus em Roma, entre elas o atual Superior Geral, Arturo Sosa Abascal, tinham conhecimento dos abusos sexuais sistemáticos contra menores na Bolívia. Segundo o livro "As Portas do Inferno", elas também teriam ordenado o ocultamento de provas documentais.

A obra foi escrita por Edwin Alvarado, Wilder Flores e Pedro Lima, representantes da Comunidade Boliviana de Sobreviventes (CBS). A informação, publicada pelo jornal Opinión no sábado (11), tem como base provas apreendidas pelo Ministério Público boliviano, entre elas e-mails e cartas secretas enviados pela Cúria Romana.

O envolvimento da Santa Sé remonta à década de 1990. Arquivos internos da ordem indicam que o então Superior Geral, Peter Hans Kolvenbach, decidiu em 1992 que o padre Luis Tó, já condenado por estupro na Espanha, deveria permanecer na Bolívia.

Em 1999, Kolvenbach recebeu relatos do então Provincial Ramón Alaix sobre o abuso cometido por Francisco Flores contra um jovem, mas, segundo os documentos, não ordenou um boletim de ocorrência e respondeu com uma carta sugerindo pelo menos seis centros de apoio psicológico em diferentes países.

Crimes com registros 

O acobertamento teria continuado sob a liderança de Arturo Sosa, que dirige a congregação desde 2016. Segundo os arquivos citados no livro, Sosa estava informado sobre a investigação interna contra o jesuíta Luis María Roma Padrosa, conhecido como Lucho Roma.

O religioso é acusado de abusar de mais de 70 meninas indígenas guaranis em Charagua e de registrar os crimes em cadernos, fotografias e vídeos.

Em fevereiro de 2020, o conselheiro regional Claudio Paul enviou um e-mail ao Superior Provincial Ignacio Suñol. De acordo com o livro, ele orientou Suñol a manter o diário do padre classificado como "informação confidencial", além de prosseguir com as reparações às vítimas e a divulgação do caso.

Ainda segundo o texto, os jesuítas na Bolívia ocultaram os manuscritos de Lucho Roma e não apresentaram queixa-crime. A obra afirma que Sosa também tinha conhecimento de casos envolvendo outros padres acusados de abuso no país, denunciados pela Comunidade Boliviana de Sobreviventes.

Apesar das denúncias, ele manteria um "silêncio estratégico para encobrir os fatos", conforme os autores. O Ministério Público da Bolívia possui os documentos originais que, segundo o livro, sustentam as acusações.