A Prefeitura de São Paulo notificou o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para apresentar, no prazo de 30 dias, justificativas técnicas para cerca de R$ 12 milhões em notas fiscais consideradas inconsistentes. Elas foram utilizadas para justificar despesas de um contrato de R$ 108 milhões destinado à instalação de pontos de wi-fi gratuito em regiões periféricas da capital, conforme apuração do portal g1.
O instituto é presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A produção também está envolvida em outro escândalo, o do caso do Banco Master, por financiamento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Além dos esclarecimentos, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia apontou a necessidade de devolução de R$ 906.752,50 referentes a quatro notas fiscais canceladas que haviam sido utilizadas para comprovar despesas do primeiro semestre de 2025.
Segundo a prefeitura, três dessas notas foram emitidas pela empresa JR Feijão Ltda., somando R$ 406.752,50. A quarta, no valor de R$ 500 mil, foi emitida pela Favela Conectada Serviço de Tecnologia Ltda. O documento afirma que todas foram canceladas pelos emissores após os pagamentos, o que impede, por ora, o reconhecimento das despesas.
Inconsistências
No caso de uma nota de R$ 500 mil, a administração municipal afirma ainda que o documento traz apenas a descrição genérica "prestação de serviços conforme contrato", sem detalhar os serviços executados.
Além dos valores cuja devolução poderá ser exigida, a secretaria identificou outros R$ 11,1 milhões em notas fiscais que necessitam de complementação documental. Os documentos foram emitidos por empresas como Favela Conectada, Make One Tecnologia Digital, Complexsys Soluções Integradas e Ultra IP Tecnologia.
Segundo a fiscalização, as notas não especificam as áreas atendidas nem os serviços efetivamente prestados. Por isso, o instituto deverá apresentar relatórios de medição, mapas de ativação e outros documentos técnicos capazes de comprovar a execução dos serviços.
Parte das irregularidades já havia sido revelada em maio, quando veio à tona que o ICB apresentou notas fiscais canceladas ou em desacordo com a legislação para justificar despesas do contrato firmado com a prefeitura. As inconsistências também são investigadas pela Polícia Civil de São Paulo e pelo Ministério Público.
Ligação com o PCC
Entre as empresas citadas está a Favela Conectada, que pertencia ao empresário Alex Bispo dos Santos até dezembro de 2025. Preso sob suspeita de feminicídio, ele também é apontado pelo Ministério Público como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Em nota, Karina da Gama afirmou que as notificações "fazem parte do fluxo ordinário de acompanhamento e análise das prestações de contas de parcerias firmadas com a Administração Pública". Ela também disse que o instituto está apresentando os esclarecimentos e documentos solicitados dentro dos prazos estabelecidos.
A Prefeitura de São Paulo informou que o balanço dos valores é temporário e que o ICB poderá regularizar a documentação durante o prazo concedido. Segundo a administração municipal, a decisão sobre eventual rejeição definitiva das despesas será tomada somente após a análise das justificativas.