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A novela de Benedito Ruy Barbosa que fez a censura do regime militar recuar

Meu Pedacinho de Chão, exibida em 1971 pela Globo e pela TV Cultura, teve cena com o Hino Nacional cortada pelo regime. Autor de Pantanal, Renascer e O Rei do Gado morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, após complicações de insuficiência renal crônica.
A novela de Benedito Ruy Barbosa que fez a censura do regime militar recuarRT / Gerada com IA

Benedito Ruy Barbosa transformou o campo brasileiro em matéria de novela. Ao levar para a televisão personagens, conflitos, modos de vida e paisagens do interior, o autor construiu parte de sua trajetória com obras como "Cabocla", "Pantanal", "Renascer", "O Rei do Gado" e "Terra Nostra".

O novelista morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, em decorrência de complicações de uma insuficiência renal crônica. Sua obra ficou associada à representação do Brasil rural na teledramaturgia, com histórias centradas em temas como terra, família, trabalho, tradição e disputas sociais.

Essa marca apareceu já em sua primeira novela na Globo, "Meu Pedacinho de Chão", exibida em 1971 também pela TV Cultura. Produzida em parceria entre as duas emissoras, a trama foi inspirada em lembranças da infância do autor e tratava de temas como técnicas de plantio, vacinação e educação cívica.

Segundo Benedito, foi nessa obra que ele conseguiu mostrar que uma novela podia ser construída a partir da realidade do campo brasileiro. A proposta, no entanto, entrou em choque com a censura da ditadura.

Cenas cortadas pela ditadura militar 

Em depoimento ao Memória Globo, concedido em 4 de dezembro de 2000, o autor contou que uma das cenas vetadas envolvia o personagem Giramundo.

"Uma vez eu escrevi uma cena que o personagem Giramundo, que era um maestro que é falecido, ele tocava violão e cantava as músicas caipiras num cenário que era uma venda de beira-estrada maravilhoso, ficava colado na escola", contou. 

Na sequência, o personagem ensinava moradores do local a cantar o Hino Nacional. A cena, de acordo com o relato de Benedito, incluía a execução da música ao violão dentro da escola, com a bandeira do Brasil sobre a mesa.

"E nesse cenário, ele começava a ensinar os caboclos a cantar o Hino Nacional", explicou. 

O autor afirmou que defendia, naquele trecho, uma visão de nacionalismo ligada à formação dos personagens. "O que eu defendia? Um tipo de nacionalismo diferente desse que anda por aí, não é? Uma coisa vai no homem, prepara o homem, não é?".

A censura determinou o corte da cena e também pediu a retirada da bandeira. "O que aconteceu, a censura cortou as cenas porque dizia que o Hino Nacional podia ser cantado no ambiente daquele e mandaram tirar a bandeira da mesa. Porque a bandeira Nacional proibida em cenas que não fossem especiais", contou. 

A reação marcou, segundo Benedito, seu primeiro enfrentamento direto com a censura.

"Aí isso aí me deixou indignado. Foi a primeira vez em que eu briguei com a censura. E consegui liberar as cenas".

Com a liberação, a sequência foi mantida na novela. "Então ele ensinou o Hino Nacional, ficou lindo, lindo, tocando violão. Ensinou os caboclos a acabou de cantar, explicando as palavras".