'Truques contábeis' e relutância dos europeus em aumentar gastos: o que está acontecendo na OTAN?

Segundo dados da revista The Economist, Espanha, Portugal e Itália são os mais indiferentes em relação a essa questão. Mas a oposição popular e problemas orçamentários também oferecem oposição à remilitarização da Europa em outros países.

Nos países europeus da OTAN, persiste uma notável relutância em aumentar os gastos com defesa para atingir a meta acordada pela aliança de 5% do PIB até 2035, e alguns governos frequentemente recorrem a "truques contábeis" em vez de fazer investimentos reais no setor de defesa, informou a revista The Economist no domingo (5).

De acordo com os dados da publicação, os três maiores países do sul da Europa — Espanha, Portugal e Itália — demonstram mais indiferença a essa questão. Madri conseguiu garantir uma exceção, fixando o teto de gastos em 2,1% do PIB. Lisboa, apesar de se declarar disposta a cumprir a meta, não estaria fazendo nada na prática.

Roma anunciou um aumento de 39% nos gastos com defesa em 2025, os elevando para o patamar de 2% do PIB. No entanto, os gastos cresceram apenas 7%, com o restante sendo resultado de "truques contábeis".

A publicação também destaca um grupo "preocupante" de países da OTAN que estão comprometidos com o rearmamento, mas têm recursos limitados e populações que se opõem a aumentos de impostos e cortes em benefícios sociais. Entre eles estão o Reino Unido e a França.

A França só poderá aumentar os gastos com defesa para 2,5% do PIB até 2030 e, mesmo assim, segundo dados do Tribunal de Contas francês, ao custo de "compromissos significativos" como aumentos de impostos ou cortes em gastos públicos em outras áreas.

Enquanto isso, o Secretário de Defesa britânico, John Healey, renunciou recentemente devido a insatisfação com o modesto aumento no orçamento da pasta.

Entre os países com "boa situação financeira", que têm ampla margem para empréstimos, a The Economist cita a Dinamarca, a Suécia e a Alemanha, que pretende gastar 3,7% do PIB com defesa até 2030.

Já as nações que já atingiram a meta ou que provavelmente a atingirão em breve estão mais próximas da Rússia: os Estados Bálticos  Estônia, Letônia e Lituânia, a Finlândia e a Polônia.

Esses países estão cortando gastos civis de forma mais decisiva em favor de gastos militares: a Lituânia está aumentando alguns impostos e introduzindo uma nova "contribuição para a segurança", enquanto a Finlândia está reduzindo significativamente os gastos com saúde e serviços sociais.

Ao mesmo tempo, as populações desses países não demonstram tanto descontentamento com essas medidas quanto em outros países europeus.

Pressão política interna e uso ineficiente de recursos

A publicação indica que o problema não está apenas no fato de os países não cumprirem suas metas de gastos, mas também no uso ineficiente dos recursos. Ela destaca que muitos governos gastam excessivamente na indústria nacional, levando à fragmentação da produção, investem em projetos ineficazes ou até mesmo cancelam programas que já consumiram recursos significativos.

A Alemanha, por exemplo, cancelou um programa de construção naval de 10 bilhões de euros (US$ 11,4 bilhões) devido a atrasos e ao aumento drástico de seus custos para 18 bilhões de euros. Os contribuintes têm motivos de sobra para estarem furiosos, tendo gasto 2,3 bilhões de euros em fragatas que a Marinha jamais receberá.

Ao mesmo tempo, os Estados europeus enfrentam pressão política interna por parte de partidos "populistas" que se opõem ao aumento dos gastos com defesa. Enquanto a esquerda não apoia os cortes às gastos sociais, a direita não vê a Rússia — cuja oposição é a justificativa usada pelos governos para a militarização — como uma ameaça aos seus países.