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Cepeda diz 'não reconhecer' De la Espriella e reaviva tensão política na Colômbia

O senador, derotado no pleito presidencial de 21 de junho, apresenta exigências ao presidente eleito, incluindo renúncia à cidadania americana e compromisso com a soberania nacional colombiana.
Cepeda diz 'não reconhecer' De la Espriella e reaviva tensão política na ColômbiaAnadolu / Colaborador

O senador Iván Cepeda, candidato derrotado nas eleições presidenciais colombianas de 2026, declarou no sábado (4) que não reconhece Abelardo de la Espriella como presidente da República, mesmo após ter aceitado sua derrota eleitoral no pleito conduzido em 21 de junho.

Durante uma manifestação pública em Cali, capital do Valle del Cauca, o parlamentar anunciou estratégia de desobediência civil pacífica caso o mandatário eleito mantenha o que classificou como "graves ameaças" à democracia.

"Não temos medo dele, vamos confrontá-lo e derrotá-lo. Veremos quem se cansa primeiro, o povo da desobediência ou ele, que nos ameaça", declarou.

Polêmica da cidadania

Uma das reivindicações fundamentais de Cepeda é que De la Espriella renuncie publicamente à cidadania americana  — o empresário e presidente eleito possui cidadania tripla (colombiana por nascimento, italiana e norte-americana) — e esclareça vínculos com agências de inteligência dos Estados Unidos.

A controvérsia remonta a junho deste ano, quando o Conselho de Estado da Colômbia rejeitou demanda apresentada ao Conselho Nacional Eleitoral que pretendia anular sua candidatura, argumentando se tratar de um ato administrativo preliminar não passível de controle da Justiça naquela fase.

Um grupo composto por vinte ex-magistrados das mais altas cortes colombianas manifestou posteriormente preocupação específica quanto à cidadania norte-americana, destacando que o juramento de naturalização nos Estados Unidos — que De la Espriella teria feito em fevereiro de 2023 — exige compromisso de "apoiar e defender a Constituição e as leis" daquele país, inclusive "contra todos os inimigos, estrangeiros e nacionais".

Os juristas distinguiram essa situação da nacionalidade italiana, considerada compatível por não implicar obrigações potencialmente conflitantes com deveres presidenciais.

O Conselho Nacional Electoral posteriormente ratificou que a Constituição colombiana não estabelece impedimento formal relacionado à dupla ou tripla nacionalidade para cidadãos colombianos por nascimento que aspirem à presidência, encerrando juridicamente a discussão antes do pleito eleitoral.

Sob o olhar do vigia

A estratégia de resistência anunciada por Cepeda se justifica na preocupação de que De la Espriella subordine a soberania nacional aos interesses norte-americanos, especialmente considerando declarações do presidente Donald Trump sobre influência no pleito presidencial, como apontado pelo próprio senador em entrevista cedida à Folha de S.Paulo no sábado (4).

"A diferença entre Rodolfo Hernández [candidato derrotado por Gustavo Petro nas últimas eleições] e Abelardo de la Espriella é que o segundo tem por trás um aparato transnacional", afirmou o colombiano ao veículo brasileiro. "Isso é o que mudou entre 2022 e hoje."

Suas denúncias incluem ainda possível desrespeito à Constituição e perseguição violenta à oposição; segundo Cepeda, o presidente eleito teria incentivado atuação do Departamento de Justiça americano contra adversários, configurando ingerência externa nos assuntos internos colombianos.

O cenário justificaria, na visão do parlamentar, mobilização popular através de mecanismos pacíficos de contestação. A estratégia prevê recusa explícita em obedecer determinações consideradas arbitrárias ou inconstitucionais, utilizando mecanismos de resistência previstos na própria Constituição.

O governo eleito reagiu com veemência, demandando respeito irrestrito aos resultados democráticos decorrentes do voto popular e da ordem constitucional. 

"O que precisa ficar claro aqui é que o presidente eleito se chama Abelardo de la Espriella, foi reconhecido por várias pessoas no país, então devemos respeitar a democracia", afirmou o vice-presidente eleito, José Manuel Restrepo, na terça-feira (30).

Com 12,7 milhões de votos obtidos, o líder oposicionista perdeu por margem estreita de aproximadamente 250 mil votos — a disputa mais apertada da história do país. 

Sua oposição representa, a princípio, uma força política considerável que poderá bancar um confronto continuado com o governo de De la Espriella, especialmente no que concerne à implementação do Acordo de Paz de 2016 com as FARC, firmado pelo presidente Gustavo Petro e oposto pelo presidente eleito.