Efeito inesperado da guerra no Oriente Médio impulsiona revolução silenciosa na África

Alta do petróleo após o bloqueio do Estreito de Ormuz tornou motos e carros elétricos mais econômicos em vários países africanos.

As consequências da guerra entre os Estados Unidos e o Irã continuam sendo sentidas muito além do Oriente Médio e começam a assumir formas cada vez mais inesperadas. A forte alta dos preços do petróleo, provocada pelo prolongado bloqueio do Estreito de Ormuz, está levando muitos países a repensar hábitos e prioridades econômicas.

Como resultado, o aumento do preço dos combustíveis está fazendo com que mais pessoas passem a considerar os veículos elétricos. E, nesse setor, a China — líder incontestável — ganha novas vantagens e consolida ainda mais sua posição.

África impulsiona demanda

O crescimento da demanda por veículos elétricos na África é particularmente revelador. Segundo o Financial Times, o aumento dos pedidos de motocicletas e ônibus elétricos montados em diferentes países africanos com componentes chineses coincidiu com uma captação recorde de recursos por parte de startups dedicadas à expansão da infraestrutura para veículos elétricos, com investimentos próximos de R$ 1,5 bilhão desde maio.

A Spiro, empresa de motocicletas elétricas e troca de baterias sediada em Dubai e com a maior presença operacional na África, anunciará nesta segunda-feira (29) uma nova rodada de financiamento de R$ 286 milhões, liderada pela New Trails Capital.

A chave está na economia

A principal razão para esse crescimento é econômica. Em nível local, na África — onde mototáxis e triciclos do tipo tuk-tuk são parte essencial da mobilidade diária —, o impacto do fechamento do Estreito de Ormuz alterou significativamente a equação financeira.

Os custos médios diários com gasolina para um mototáxi aumentaram mais de 20%, passando de R$ 21,88 para R$ 26,57 após a guerra.

"Com eletricidade, é possível percorrer a mesma distância por R$ 11,98", explicou Brian Njao, responsável pelo financiamento de mobilidade elétrica da M-Kopa, plataforma de tecnologia financeira sediada em Londres que atua na África.

Segundo ele, a lista de espera para financiamento de motocicletas elétricas é tão extensa que a empresa deixou de aceitar novos depósitos.

De acordo com o Financial Times, durante muito tempo se acreditou que a eletrificação do transporte na África seguiria o modelo tradicional de importação de veículos usados da Europa e da Ásia. No entanto, essa dinâmica está mudando: automóveis elétricos chineses e motocicletas montadas na África com peças provenientes da China já chegam ao mercado com preços competitivos, permitindo ao continente acelerar sua transição tecnológica.

Uma mudança mais ampla

A tendência também reflete um fenômeno de maior escala. Cada vez mais países africanos buscam reduzir sua dependência do petróleo proveniente do Golfo Pérsico e aliviar o pesado impacto financeiro dos combustíveis fósseis.

Nesse contexto, o Quênia planeja eliminar as tarifas de importação para veículos elétricos. A Etiópia, que gera mais de 90% de sua eletricidade por meio de energia hidrelétrica, proibiu em 2024 a importação de veículos com motores de combustão interna. Ruanda adotou medida semelhante, impulsionando um aumento de 28% nas vendas de carros elétricos.

A tendência se espalha por todo o continente: as vendas de veículos elétricos passaram de cerca de 4 mil unidades em 2023 para aproximadamente 25 mil em 2025. A fabricante chinesa BYD respondeu por 35% de todos os veículos elétricos vendidos na África naquele ano.

Ao mesmo tempo, o movimento também pode impulsionar a produção local. Segundo o Financial Times, a Spiro — presente em sete países africanos, onde monta seus próprios veículos — planeja uma expansão agressiva para novos mercados graças ao capital captado. Somente no mês passado, a empresa vendeu 10 mil motocicletas elétricas na África e pretende alcançar a marca de 1 milhão de unidades vendidas até 2027.