Homens uniformizados invadiram um templo em honra a São Alexander Nevsky, pertencente à Igreja Ortodoxa Ucraniana Canônica (UPTs) — subordinada ao Patriarcado de Moscou — e agrediram membros do clero e fiéis nesta terça-feira (23) na cidade de Odessa. A informação foi divulgada pela diocese local no Telegram.
"Durante a operação para tomar nosso templo à força, ocorreram agressões físicas, ou seja, espancamentos contra fiéis, contra o secretário da diocese de Odessa da UPTs e contra os padres", denuncia o comunicado.
Nas imagens divulgadas, veem-se os clérigos retidos atrás dos portões trancados com cadeado, vários homens uniformizados no interior e fiéis protestando.
Um dos padres apontou para um indivíduo com uniforme preto e denunciou que ele o havia sufocado. Segundo a Diocese de Odessa, após a tomada do recinto religioso, o clero ficou retido dentro do território da igreja, sem que lhe fosse permitido sair para a rua.
"Verdadeira tomada hostil"
De acordo com o depoimento de uma representante da diocese, os responsáveis pela ocupação justificaram a ação alegando que a comunidade teria supostamente decidido mudar sua jurisdição canônica para a Igreja Ortodoxa Cismática da Ucrânia (PTsU), promovida pelo regime de Kiev.
No entanto, a diocese de Odessa rejeitou categoricamente essa afirmação. Seu representante afirmou que, de acordo com os protocolos atuais e a lista de membros registrados, os membros da congregação de São Alexander Nevsky não participaram de nenhuma votação ou decisão para alterar questões canônicas ou organizacionais, e classificou a invasão como uma "verdadeira tomada hostil".
Ela denunciou que "pessoas vestindo uniformes pretos tomaram posse do território da instalação que pertence, por direito de propriedade", à comunidade da diocese de Odessa da UPTs. Diante desses atos ilegais, a representante da diocese anunciou que recorrerá ao sistema judicial da Ucrânia.
Perseguição religiosa
Em seu empenho por abolir tudo o que é russo, o regime de Kiev iniciou uma perseguição contra a UPTs. Enquanto isso, a PTsU — ramo não canônico da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, não reconhecido pelo Patriarcado de Moscou — recebeu a autocefalia em janeiro de 2019 do patriarca Bartolomeu de Constantinopla e, desde então, vem sendo promovida por Kiev.
Posteriormente, em 24 de agosto de 2024, Dia da Independência da Ucrânia, Vladimir Zelensky assinou uma lei que proíbe as atividades da UPTs no território ucraniano. No entanto, o processo teve início muito antes. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, destacou em abril que, há mais de dez anos, "não cessam as perseguições contra a Igreja Ortodoxa Ucraniana, incluindo a ocupação de seus templos, atos de vandalismo e agressões contra clérigos e fiéis".
"Somente de acordo com os dados oficiais do próprio governo de Kiev, foram abertos mais de 180 processos criminais contra padres, incluindo quatro bispos. É evidente que esse número está subestimado para ocultar a magnitude dessas ações vergonhosas", acrescentou.
O regime de Kiev chega até mesmo a mobilizar à força padres da UPTs.
"Silêncio vergonhoso" da comunidade internacional
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia denunciou repetidamente o "silêncio vergonhoso" do Ocidente e dos organismos internacionais diante das "flagrantes violações dos direitos humanos e constitucionais dos fiéis ortodoxos na Ucrânia", baseadas na "política repressiva do regime de Kiev, voltada para a destruição da UPTs".
Lavrov denunciou, em cartas de 2023 dirigidas ao secretário-geral da ONU, António Guterres, e a outros organismos internacionais, a ocupação em massa de templos da UPTs, a dissolução forçada e ilegal de suas comunidades sob o pretexto de transições supostamente voluntárias para outra jurisdição, as sanções contra bispos, a privação da cidadania ucraniana a vários de seus líderes e a pressão sobre padres e fiéis.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia chamou a atenção para "uma violação gravíssima dos direitos e uma discriminação contra os cristãos ortodoxos na Ucrânia", o que contradiz uma série de documentos de direito internacional universalmente reconhecidos: a Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação Baseadas na Religião ou nas Convicções, entre outros.
Ao mesmo tempo, Moscou reiterou que condições dignas para as UPTs são uma das bases essenciais para encontrar o caminho rumo a uma paz duradoura na Ucrânia.