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Sob inspiração soviética, startup brasileira desenvolve barco voador para revolucionar transporte na Amazônia

Equipamento dispensa aeroportos e utiliza rios como infraestrutura, transportando até dez passageiros ou uma tonelada de carga com maior eficiência energética.
Sob inspiração soviética, startup brasileira desenvolve barco voador para revolucionar transporte na AmazôniaAeroRiver / Divulgação

Promovendo uma inovação que promete transformar a mobilidade da Amazônia, engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) criaram um veículo capaz de voar a aproximadamente cinco metros acima da água, alcançando velocidades de 150 km/h. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo neste sábado (20).

A tecnologia híbrida entre embarcação e aeronave do modelo Volitan busca solucionar as dificuldades logísticas enfrentadas por comunidades isoladas, onde deslocamentos convencionais podem consumir dias inteiros.

A AeroRiver, startup fundada em 2020 na região Norte do Brasil, desenvolveu o equipamento para transportar até dez passageiros ou cerca de uma tonelada de carga.

O grande diferencial está na capacidade de aproveitar a extensa rede hidrográfica amazônica sem demandar pistas de pouso ou aeroportos. O fenômeno aerodinâmico do "efeito solo" proporciona maior eficiência energética comparado às aeronaves tradicionais, tornando a operação mais viável economicamente.

"O efeito solo é um efeito aerodinâmico onde o escoamento de ar ao redor de um corpo é interrompido pelo solo", escreve a página da empresa. "Isso ocorre porque o solo age como um bloqueador para os vórtices gerados nas pontas das asas de uma aeronave."

Adaptabilidade

Lucas Guimarães, desenvolvedor do projeto, destaca que a iniciativa nasceu da observação das características geográficas regionais.

Apesar de possuir uma das maiores redes fluviais do planeta, a Amazônia ainda enfrenta sérias limitações de mobilidade. A classificação regulatória do prjeto é outro aspecto facilitador; por ser considerado embarcação, o veículo segue normas distintas da aviação convencional, simplificando sua implementação.

Após quatro anos de pesquisas e validação através de modelos reduzidos, a empresa iniciou a construção do protótipo do Volitan em escala real. Paralelamente, desenvolve uma versão não tripulada para cargas de 20 quilos.

As primeiras operações experimentais devem começar ainda este ano, com apoio do Programa Centelha do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, visando ampliar o acesso a serviços essenciais e impulsionar o desenvolvimento socioeconômico regional.

Anteriormente, já foram conduzidos voos com modelos reduzidos, durante o período de desenvolvimento do projeto.

Inspiração soviética

A tecnologia brasileira inspira-se nos ecranoplanos soviéticos desenvolvidos durante a Guerra Fria, como apontado pela própria AeroRiver na exposição de seus precedentes tecnológicos.

Nos anos 1960, a União Soviética pioneirou na exploração do efeito solo para criar veículos capazes de transportar cargas e tropas pelo mar em alta velocidade com reduzido consumo de combustível.

Esses gigantes voadores, como o lendário KM (Korabl-Maket, ou Navio-Protótipo) — apelidado de "Monstro do Cáspio" pela inteligência ocidental — alcançavam mais de 500 km/h navegando poucos metros acima da superfície marítima, dificultando sua detecção por radares inimigos.

Sob completo acesso em território soviético, o Mar Cáspio proporcionava vastas extensões sem complicações políticas de águas internacionais, além de relativa calmaria necessária para experimentar veículos massivos que exigiam condições estáveis.

Esse protótipo KM serviu comolaboratório voador para desenvolver sucessores como o "Orlyonok", destinado ao desembarque anfíbio de até 200 soldados e veículos blindados, e o "Lun", armado com seis mísseis antinavios "Mosquito" de 120-250 km de alcance, capaz de afundar praticamente qualquer embarcação com ogivas de 150 kg.