A verdade incômoda de Sergey Lavrov que o Politico se recusou a publicar

O artigo do chanceler russo, "Ucrânia, Europa e a segurança global", estava inicialmente previsto para ser publicado na edição europeia do portal, mas sua publicação foi cancelada no último momento por decisão da redação.

Os líderes do Reino Unido, da França e da Alemanha, assim como Vladimir Zelensky, apresentaram na reunião realizada em Londres em 7 de junho cinco exigências à Rússia como condições para uma "paz justa e duradoura" na Ucrânia. Com base nesse conjunto de exigências, a Europa propõe dialogar com Moscou.

Algumas reflexões sobre a resolução da crise ucraniana, a Europa e a segurança global

Toda a experiência de negociação com a Europa como parte do "Ocidente coletivo" ao longo de mais de 20 anos demonstra uma única coisa. As negociações com a Rússia são uma tática enganosa, uma cobertura diplomática para a expansão geopolítica do Ocidente e de suas instituições, sobretudo a OTAN e a União Europeia, para o Leste, em direção às fronteiras russas.

É impossível negar a contribuição da Europa para o agravamento da crise ucraniana. Juntamente com os americanos, os europeus inspiraram a "Revolução Laranja" em Kiev em 2004. Com o objetivo de criar uma plataforma antirrussa na Ucrânia, durante anos compraram políticos e partidos inteiros, reescreveram a história e os programas educacionais, alimentaram e cultivaram o nacionalismo ucraniano e fizeram todo o possível para afastar a Ucrânia da Rússia.

Em 2013, a União Europeia rejeitou nossa proposta de buscar uma solução de compromisso sobre o acordo de associação, cuja assinatura Bruxelas impunha a Viktor Yanukovich. Recordo que à Ucrânia era proposto abrir seus mercados sem promessas de reciprocidade, embora isso fosse incompatível com a continuidade da participação de Kiev na zona de livre comércio da Comunidade dos Estados Independentes. Depois que Viktor Yanukovich pediu o adiamento da assinatura do acordo, os europeus provocaram distúrbios de rua e o golpe de Estado em Kiev em fevereiro de 2014.

Depois, Alemanha, França e Polônia comportaram-se da mesma forma traiçoeira. Após oferecerem garantias para o cumprimento do acordo, "lavaram as mãos" assim que a própria oposição controlada por eles assumiu o poder: a democracia, disseram, pode tomar rumos inesperados.

Em seguida, os europeus passaram a apoiar as novas autoridades. Quando, em 2 de maio de 2014, dezenas de partidários da aproximação com a Rússia foram queimados em Odessa, não se ouviu da Europa uma única palavra de condenação.

Como garantidores dos Acordos de Minsk de 2015, França e Alemanha incentivaram de fato a sabotagem das obrigações por parte do regime ucraniano. Como reconheceram Angela Merkel e François Hollande após o início da operação militar especial, nunca esteve previsto que Kiev cumprisse os Acordos de Minsk, aprovados por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU. A tarefa consistia em ganhar tempo para "reforçar o poder" das Forças Armadas da Ucrânia e enchê-las de armas ocidentais.

A Rússia, por sua vez, fez todo o possível para superar a crise de segurança na Europa por meio da diplomacia. No entanto, em janeiro de 2022, os Estados Unidos e a OTAN rejeitaram a proposta russa de concluir acordos juridicamente vinculantes sobre garantias mútuas de segurança. Os membros europeus da aliança participaram ativamente disso.

Após o início da operação militar especial, a Europa unificada apoiou a linha do primeiro-ministro do Reino Unido voltada para sabotar as negociações de Istambul entre Rússia e Ucrânia. O apelo de Boris Johnson para que Kiev "não assinasse nada e simplesmente lutasse" fechou por muito tempo as possibilidades de uma diplomacia real.

A situação atual

Surge a pergunta de por que, de repente, os líderes europeus "mudaram o disco" e passaram a falar de negociações, e o que pretendem com suas declarações. Por exemplo, segundo as declarações da chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, o diálogo com a Rússia é necessário para transmitir as condições da Europa, incluindo o pagamento de "reparações" à Ucrânia, a retirada de tropas da Transnístria e da Transcaucásia, a revogação da lei sobre "agentes estrangeiros" e o estabelecimento de um limite máximo para o efetivo das Forças Armadas da Federação da Rússia.

Ela considera que "é impossível alcançar uma paz justa e duradoura sem responsabilizar a Rússia". Em 19 de maio deste ano, um representante da União Europeia, durante uma sessão do Conselho de Segurança da ONU, ressaltou que "o apoio militar à Ucrânia não contradiz a busca pela paz; é uma condição prévia para a realização de negociações de boa-fé".

A Europa pretende negociar com a Rússia paralelamente à continuação da agressão jurídica realizada por meio do Conselho da Europa. No âmbito dessa organização, outrora respeitada, estão sendo criadas estruturas "para responsabilizar a Rússia": um "registro de danos", uma "comissão de reivindicações" e um "tribunal especial".

A União Europeia deu "sinal verde" para a detenção de navios mercantes em alto-mar. Já ocorreram vários incidentes no Báltico e no Atlântico. Ao mesmo tempo, o Ocidente fecha os olhos para as sabotagens terroristas das Forças Armadas da Ucrânia no Mar Negro e no Mediterrâneo.

Portanto, o verdadeiro objetivo dos líderes europeus não são as negociações com a Rússia, mas salvar o regime de Vladimir Zelensky e preservá-lo como plataforma para continuar a luta contra nós. Para isso, as capitais europeias querem alcançar o mais rapidamente possível um cessar-fogo para impedir o colapso das Forças Armadas da Ucrânia na frente de combate. "Congelar" o conflito sem eliminar suas causas profundas. E introduzir imediatamente na Ucrânia contingentes militares da "coalizão dos voluntários" anglo-francesa.

É amplamente conhecido que as elites europeias investiram seu "capital político" na confrontação com a Rússia e gastaram centenas de bilhões de dólares apoiando o regime de Kiev, aumentando os orçamentos militares dos países da União Europeia e da OTAN. Na Europa, planeja-se alcançar "capacidade de combate" para um conflito com a Rússia até 2030. Até lá, querem ganhar tempo de diferentes formas. Como declarou cinicamente em abril deste ano o chefe do Estado-Maior belga: "Ainda temos alguns anos graças ao sangue dos ucranianos, que nos compra esse tempo".

A Europa unificada continua sonhando com a expansão, pretende se apropriar da Ucrânia e da Moldávia e atrai a Armênia para sua órbita. A OTAN expandiu-se para o Leste, absorvendo Finlândia e Suécia. A Ucrânia é vista como o "punho de ataque" das futuras forças armadas europeias, autônomas dos Estados Unidos e da OTAN.

Riscos para a segurança global

Essa situação implica sérios riscos para a segurança global, já que um confronto direto entre a OTAN e a Rússia pode transformar-se rapidamente em uma troca de ataques nucleares com consequências catastróficas.

Sob o lema da "autonomia estratégica", ocorre na Europa um sério fortalecimento dos potenciais militares, inclusive na esfera nuclear. Causam profunda preocupação as intenções de Paris de fornecer um "guarda-chuva nuclear" a vários países da União Europeia e da OTAN. Isso, sem dúvida, não reforçará a segurança nem da própria França nem dos destinatários dessa "ajuda".

Ao mesmo tempo, políticos e militares europeus atribuem à Rússia supostos planos agressivos que, segundo eles, não se limitam à Ucrânia. O presidente da Rússia declarou muitas vezes que isso é um disparate, uma provocação e uma desinformação destinada a arrancar dinheiro dos orçamentos para lutar contra a Rússia. E esse não é o contexto em que se possa manter uma negociação substancial sobre qualquer tema.

A posição da Rússia

Quanto às negociações, como voltou a assinalar Vladimir Putin no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, não rejeitamos contatos com ninguém. No entanto, percebemos a Europa como uma parte do conflito interessada na derrota da Rússia, e os próprios europeus se apresentam abertamente dessa forma. Consequentemente, o diálogo com a Europa não pode ser construído como se ela fosse um observador externo imparcial.

A Rússia prefere que os objetivos da operação militar especial sejam alcançados por meio da diplomacia. Para isso, é necessário que estejam garantidas, de forma confiável, a segurança da Rússia em suas fronteiras ocidentais, a honra e a dignidade de nossos cidadãos e compatriotas, incluindo seu direito à língua russa materna e à fé ortodoxa. Não pode haver sequer discussão sobre a continuação da expansão militar, política e econômica do Ocidente, pois isso contradiz os imperativos de um mundo multipolar.

Os dirigentes europeus devem compreender que o modelo de segurança regional construído na Europa durante décadas, a partir da adoção da Ata Final de Helsinque em 1975, foi destruído por suas próprias mãos. Agora é necessário avançar para a criação de uma arquitetura de segurança pancontinental, aberta a todos os países da Eurásia e que reflita as realidades multipolares do mundo contemporâneo. O princípio da segurança igual e indivisível, pisoteado nas estruturas euro-atlânticas, pode tornar-se realidade em uma nova arquitetura euroasiática. Quando as condições amadurecerem, a Europa poderá juntar-se a esse grande trabalho.

O principal é que, para um diálogo substantivo, é necessário restabelecer a confiança, minada pelas ações antirrussas do Ocidente e da Europa como sua parte integrante no período posterior à "Guerra Fria". A confiança só pode ser restaurada por meio de medidas práticas que demonstrem a sinceridade da rejeição ao uso da diplomacia como cobertura para projetos expansionistas. A confiança não pode ser restabelecida nem o diálogo retomado por meio de ultimatos como o apresentado à Rússia em Londres em 7 de junho.

Em vez de epílogo

É significativo que o ultimato de Londres tenha sido confirmado sem possibilidade de apelação pelos embaixadores do Reino Unido, da França e da Alemanha na reunião realizada no Ministério das Relações Exteriores da Rússia em 11 de junho, encontro que eles próprios solicitaram insistentemente. Esse foi o único objetivo de sua visita ao ministério russo das Relações Exteriores.