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Como Ocidente está discretamente retomando diálogo com Rússia

Após o fracasso das tentativas de isolar a Rússia, que se arrastam há anos, representantes das duas maiores economias ocidentais, incluindo um representante da delegação alemã e um funcionário do governo Trump, participarão do Fórum Econômico de São Petersburgo.
Como Ocidente está discretamente retomando diálogo com RússiaSputnik / Gavriil Grigorov

Esta semana, começa o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF), um dos principais eventos de negócios da Rússia. Tradicionalmente, o encontro reúne empresários, autoridades e especialistas de diferentes partes do mundo.

Além de uma extensa agenda de debates, discursos do presidente russo, Vladimir Putin, e negociações de alto nível, a edição deste ano chama atenção por um motivo especial: pela primeira vez em anos, é esperada a participação de um representante do atual governo dos Estados Unidos, além de uma delegação da Alemanha.

Especialistas avaliam que isso vai além de um gesto protocolar e reflete uma tendência mais ampla: o reconhecimento do fracasso das tentativas de isolar a Rússia e da necessidade de retomar o diálogo com Moscou.

Representante do governo Trump no fórum

Na semana passada, foi revelado que, pela primeira vez em muito tempo, um representante do governo dos EUA participará do fórum. Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes dos Estados Unidos representará seu país. No cargo, ele supervisionou a aprovação da ampliação do salão de baile da Casa Branca durante o governo Trump.

"O comitê organizador do fórum e o Departamento de Estado confirmaram meu convite para a sessão plenária e para o discurso do presidente Putin. E estarei lá", declarou à agência de notícias russa RIA Novosti.

Também estão programados dois eventos bilaterais entre Rússia e Estados Unidos durante o SPIEF: um diálogo empresarial e uma sessão cultural, organizados com a participação da Câmara de Comércio dos EUA e da Fundação Roscongress.

Alemanha busca manter laços

Os organizadores do SPIEF destacam a presença de representantes de mais de 130 países, entre eles, de forma inesperada, uma delegação empresarial alemã.

"Acima de tudo, pensando no período pós-cessar-fogo, nós, assim como outros grandes países ocidentais, queremos preservar as relações econômicas com a Rússia e proteger os mais de 100 bilhões de euros em ativos alemães no país", afirmou Matthias Schepp, presidente da Câmara de Comércio Exterior Alemã-Russa, à agência alemã DPA.

Segundo uma pesquisa feita pela entidade com seus 750 associados, quase todas as empresas pretendem permanecer na Rússia por considerarem o mercado relevante para seus negócios.

Em consequência das sanções ocidentais contra Moscou, o comércio entre Alemanha e Rússia caiu para menos de 10 bilhões de euros (US$ 11,6 bilhões) em 2025.

Antes do conflito na Ucrânia, a Alemanha era o principal parceiro comercial europeu da Rússia. Em 2021, as trocas comerciais entre os dois países somaram 59,7 bilhões de euros (US$ 72 bilhões) e atingiram o pico de 80 bilhões de euros (US$ 93 bilhões) em 2012.

Ao mesmo tempo, pouco mais de um terço das empresas consultadas acredita que as sanções prejudicam mais a Alemanha do que a Rússia. Mais da metade considera que os impactos são semelhantes para ambos os países.

Questionadas sobre a retomada das importações de gás e petróleo russos, 65% responderam "sim, quanto antes, melhor", enquanto 31% disseram "sim, mas apenas após o fim das hostilidades" entre Kiev e Moscou.

Nesse contexto, Kirill Dmitriev, enviado especial do presidente russo para investimentos e cooperação econômica internacional, afirmou que "os líderes empresariais alemães estão mostrando aos políticos e burocratas alemães o caminho a seguir". Segundo ele, a indústria alemã perdeu competitividade e sofre com o aumento de 30% a 40% nos custos de energia após a interrupção do fornecimento de energia russa.

Fracasso das tentativas de isolar Rússia

Stanislav Tkachenko, doutor em Ciências Econômicas e professor da Universidade Estatal de São Petersburgo, afirmou à RT que a Europa começa a perceber o erro de ter entrado em confronto com a Rússia.

"A percepção de que os governos europeus entraram em conflito com a Rússia contra os interesses de seus cidadãos e de suas empresas está se fortalecendo", afirmou.

Segundo ele, quando a economia russa resistiu às sanções e manteve um ritmo acelerado de crescimento, a posição europeia começou a perder força.

"A militarização da interdependência econômica — ou seja, o uso das amplas relações econômicas entre os países ocidentais e a Rússia para causar danos considerados inaceitáveis ao país — mostrou ser uma estratégia sem futuro. As empresas ocidentais que aderiram à tentativa de impor uma derrota estratégica à Rússia deram um tiro no próprio pé. Além das perdas diretas, perderam acesso ao promissor mercado russo e abriram espaço para empresas da Turquia, do Oriente Médio, da China, da Índia e dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean)", observou Tkachenko.

Tentativa de manter posições

Na avaliação do professor, a presença de empresários alemães no fórum é o "primeiro sinal" de um novo movimento: algumas empresas tentam preservar sua presença na Rússia, enquanto outras buscam voltar ao mercado russo.

Ao mesmo tempo, ele observou que grandes companhias afirmam estar dispostas a retomar os negócios com Moscou apenas após o fim do conflito. Para ele, esse argumento já não tem peso na Rússia.

"Para a Rússia, suas autoridades e o setor empresarial, esse argumento deixou de ser eficaz há muito tempo. Para o nosso país, a vida econômica não para um único dia", explicou.

"O grupo de países que a Rússia não considera 'hostis' — ou seja, aqueles que não adotaram sanções contra nós — continua crescendo. Isso preocupa as empresas ocidentais, que tentam encontrar maneiras de manter algum nível de diálogo com a Rússia. O envio de representantes ao Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo é um exemplo disso", concluiu o especialista.