O grupo palestino Hamas manifestou disposição para estabelecer uma trégua prolongada em Gaza, em face da chegada de sua delegação ao Cairo, no Egito, na sexta-feira (5), para novas discussões com mediadores acerca do plano de paz para a Faixa de Gaza. A organização, porém, mantém sua recusa completa à rendição imediata de suas armas.
Husam Badran, integrante do núcleo político do grupo, esclareceu em entrevista exclusiva ao jornal catari Al Jazeera que o destino dos armamentos será definido mediante diálogo com outras organizações palestinas, descartando qualquer capitulação unilateral.
A proposta apresentada prevê que somente as forças policiais vinculadas ao Comitê Nacional para Administração de Gaza, sediado no Cairo, exibirão armamentos publicamente.
"Não haverá manifestações armadas como as que estávamos acostumados a ver na Faixa de Gaza", afirmou Badran; ele ressalva, contudo, que isso não significa a transferência formal dos arsenais. Os detalhes desse arranjo serão deliberados em âmbito nacional palestino, envolvendo oito facções principais.
Negociações obstadas
As discussões programadas para o Cairo enfrentam obstáculos, entre atrasos pelo Hamas em protesto aos contínuos bombardeios de Israel no território palestino e exigências israelenses do desarmamento como condição para progressão nas fases do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos.
Segundo documentos obtidos pelo jornal The Times of Israel, o Conselho da Paz do presidente dos EUA, Donald Trump, teria indicado ao Hamas que não garantiria que Israel cessasse os ataques em Gaza ou garantisse a entrada de ajuda humanitária na Faixa, caso o grupo não concorde com a entrega das armas.
O autor do documento seria o representante especial do Conselho da paz de Donald Trump, Nickolay Mladenov, ex-chanceler da Bulgária (2010-2013) e ex-Coordenador Especial das ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio (2015-2020), que apresentou um roteiro de quinze pontos prevendo desmilitarização gradual e supervisão palestina, condicionada à retirada militar israelense e implantação de força internacional de estabilização.
Autoridades e analistas palestinos citados na reportagem interpretam a estrutura das negociações centralizadas no desarmamento como uma estratégia para ganhar tempo, que permite a Tel Aviv consolidar ocupação territorial enquanto extrai concessões.
"Estamos falando de ajuda humanitária… o mecanismo de travessia de Rafah, a infraestrutura e os assassinatos", explicou Badran. "A ideia era um cessar-fogo abrangente, mas cerca de mil pessoas foram mortas. Dizer que Israel implementou sequer 30% do cessar-fogo é um exagero."