
Doutrina 'Donroe' impacta o cenário eleitoral na América Latina

A doutrina "Donroe", que defende alcançar a paz na América Latina por meio da força, tem repercutido nos processos eleitorais mais recentes da região, marcados por uma forte polarização entre setores conservadores e correntes mais progressistas.
No cenário eleitoral mais próximo estão Peru e Colômbia. Em ambos os países, após o primeiro turno das eleições presidenciais, os candidatos conservadores — alinhados às políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e críticos da esquerda — ficaram em primeiro lugar.
Nos dois casos, o principal objetivo de Washington é recuperar dois de seus principais parceiros sul-americanos para reafirmar sua hegemonia regional e afastá-los da influência da China e de outras nações emergentes que ampliaram sua presença na América Latina em busca de novas rotas de intercâmbio comercial.

Simpatia por Trump
Neste domingo, será definido o futuro político do Peru, país que, nos últimos anos, teve sete presidentes com mandatos interrompidos. Nesse contexto, Keiko Fujimori desponta como a candidata mais alinhada à nova doutrina de Trump, baseada na premissa de que os Estados Unidos são a principal potência do hemisfério ocidental e, portanto, têm capacidade e direito de determinar como as coisas devem funcionar na região.
A simpatia de Fujimori pela administração Trump é pública. A candidata do partido Fuerza Popular não escondeu seu apoio às políticas do republicano para a região e afirmou que o slogan "Make America Great Again" (MAGA) colocou os Estados Unidos "no centro das atenções".
Para ela, a nomeação de Marco Rubio para o cargo de secretário de Estado dos EUA criou "pontes e relações muito mais próximas, fluidas e abertas ao diálogo", afirmou em entrevista à CNN.

A filha do ex-ditador Alberto Fujimori também destacou que vários presidentes da região estão alinhados à estratégia da coalizão militar multinacional denominada "Escudo das Américas", o que classificou como "um incentivo e uma esperança" para a América Latina.
O "Escudo das Américas" é um plano lançado por Trump com a proposta de formar uma aliança regional de governos de direita para combater o narcoterrorismo, o crime organizado transnacional e a migração, além de reduzir a influência comercial da China na região por meio do compartilhamento de informações de inteligência.
Recuperar o terreno perdido
Além do apoio político, Washington busca recuperar um de seus principais parceiros regionais e afastá-lo da influência chinesa. Nesse contexto, o Peru, atualmente o segundo maior destino de investimentos da China na região, surge como uma oportunidade para fortalecer ainda mais a presença dos Estados Unidos na América do Sul.
A própria Fujimori declarou, em entrevista, que seu "principal papel será fazer com que os Estados Unidos voltem a participar mais ativamente" da economia peruana.
Nas propostas de governo, Fujimori também demonstrou convergência com a linha dura contra a imigração defendida por Trump. A candidata mais votada no primeiro turno prometeu expulsar imigrantes em situação irregular com antecedentes criminais, segundo a revista Caretas.

Além disso, propôs, em seu programa de governo "Peru com Ordem", reforçar a segurança nas fronteiras com novas tecnologias, drones militares e maior presença de agentes uniformizados.
"Nosso país merece respeito. Comprometo-me a devolver a ordem e a segurança que ele merece", afirmou, segundo a emissora RPP.
Disputa nos portos
Uma das iniciativas que a administração Trump pretende consolidar no Peru é sua participação no projeto de concepção, construção e modernização da Base Naval de Callao, vinculada à Marinha peruana e localizada no principal porto do país andino, na costa do Pacífico.
Embora críticos considerem a medida uma forma de estabelecer uma base militar em território peruano, a Agência de Cooperação em Segurança de Defesa afirmou que a participação dos Estados Unidos no projeto "contribuirá para os objetivos de sua política externa de fortalecer a segurança de um parceiro importante, que representa uma força de estabilidade política, paz e progresso econômico na América do Sul".
A infraestrutura coexistirá com o megaprojeto portuário de Chancay, situado a apenas 80 quilômetros de distância e desenvolvido com investimentos chineses. Dessa forma, os dois empreendimentos dividirão espaço na costa central do Peru em um momento de intensa disputa entre seus financiadores pela ampliação da influência na América Latina.
Troca de elogios
O alinhamento com a linha dura da Casa Branca também apareceu na Colômbia. O candidato conservador Abelardo de la Espriella, que terminou o primeiro turno presidencial na liderança, agradeceu ao presidente dos Estados Unidos pelo "apoio inabalável" antes do segundo turno.
"Vejo no senhor um líder de verdadeira força e convicção", escreveu em inglês na rede social X. "O senhor abriu caminho para que o povo derrotasse os grupos entrincheirados que mantiveram o controle por tanto tempo. Na Colômbia, agora começamos a seguir esse mesmo caminho", acrescentou.
Trump, como já havia feito em outros processos eleitorais da região, como em Honduras, também participou ativamente do debate sobre as eleições colombianas. O republicano parabenizou o jurista de 47 anos pela "vitória decisiva" no primeiro turno e declarou seu "apoio total e irrestrito".

"Parabéns ao candidato presidencial colombiano, 'El Tigre', Abelardo de la Espriella, um líder inteligente, forte e determinado, por sua decisiva vitória no primeiro turno das eleições presidenciais da Colômbia", escreveu Trump em sua plataforma, Truth Social.
Em busca de um antigo aliado
Além da troca de elogios, Washington busca recuperar seu principal aliado histórico na América do Sul, relação que permaneceu distante durante o governo de Gustavo Petro.
Nesta semana, o secretário de Estado dos Estados Unidos classificou a Colômbia como um país "problemático" e a excluiu da coalizão de aliados estratégicos, situação que poderia mudar caso o chamado candidato "outsider" chegue à Casa de Nariño.

Assim como Fujimori, De la Espriella defende a necessidade de "mão dura" para impor segurança e ordem no país. Também propõe encerrar a política de "paz total", alvo de críticas do governo norte-americano, e construir cerca de dez megapresídios na Colômbia, nos moldes do modelo adotado em El Salvador.




