O Acordo entre Estados Unidos e Irã, negociado sem a participação de Israel, representa 'um perigo existencial' pela sobrevivência política do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Portanto, uma escalada no Líbano permanece como sua única saída para se manter no poder, argumenta o analista Elfadil Ibrahim em artigo para a Responsible Statecraft, publicado na quinta-feira (28).
O especialista lembra que, quando Washington e Tel Aviv lançaram os ataques ao Irã em fevereiro, Netanyahu definiu os objetivos da campanha em termos maximalistas: destruir o programa nuclear iraniano, cortar o apoio de Teerã a seus aliados regionais e derrubar a República Islâmica. No entanto, três meses depois, "O Irã ainda está de pé" diz Ibrahim. E o iminente acordo entre EUA e Irã "não aborda quase nenhum desses objetivos", concentrando-se no transporte marítimo e no fim das hostilidades diretas.
Portanto, Ibrahim observa que "a situação de Netanyahu é especialmente grave": ele ajudou a desencadear uma guerra contra o Irã que não conseguiu colocar Teerã de joelhos, foi excluído das negociações sobre o resultado do conflito e enfrenta eleições em setembro. Além disso, segundo pesquisas citadas pelo autor, apenas 10% dos israelenses consideram bem-sucedida esta campanha contra o Irã.
A única estrada que poderia manter seu futuro viável agora passa pelo Líbano.
Como o artigo destaca, com a proximidade das eleições, Netanyahu "não pode sobreviver a uma paz que deixe o Hezbollah intocado e adie o programa nuclear iraniano". Nesse sentido, argumenta-se que "o único caminho que poderia manter seu futuro viável agora reside no Líbano". Ibrahim observa que, horas depois de Trump anunciar que o acordo com o Irã foi "em grande parte negociado" em conversas que excluíram Israel, Netanyahu ordenou ao exército que "intensificasse os ataques" contra o Hezbollah. Na visão do analista, o primeiro-ministro busca, portanto, alcançar algum sucesso que possa apresentar aos eleitores, e "o Líbano é uma peça-chave nesse cálculo".
Governo israelense está cambaleando
O especialista ressalta que o gatilho imediato para a escalada no Líbano tem sido o uso pelo Hezbollah de drones de fibra óptica contra as tropas israelenses. Esses drones, segundo o analista, não podem sofrer interferências porque evitam as radiofrequências e causaram a morte ou ferimentos graves de vários soldados israelenses.
Em resposta, altos funcionários do governo israelense pressionaram por uma grande escalada. Ibrahim cita o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, afirmando que "para cada drone explosivo, dez prédios devem cair em Beirute. Por sua vez, o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, foi ainda mais longe: "é hora do primeiro-ministro bater na porta de Trump e informá-lo que estamos voltando à guerra no Líbano. Precisamos cortar a energia elétrica no Líbano... e para voltar a uma guerra feroz", declarou.
Para explicar por que Netanyahu não pode ignorar essas vozes, o analista lembra que Ben-Gvir e Smotrich "não são simplesmente parceiros de coalizão difíceis. Pelo contrário, são homens cujo apoio deu a Netanyahu a posição de primeiro-ministro," enquanto seu maximalismo "definiu a identidade de seu governo". "O dilema de Netanyahu é que ele precisa deles, mas não pode controlá-los", destaca.
Dois ex-primeiros-ministros israelenses, Naftali Bennett e Yair Lapid, fundiram seus partidos para destituir Netanyahu do cargo. A publicação destaca que sua plataforma inclui o serviço militar universal e limites de mandato para primeiros-ministros, com prazo máximo de oito anos. "Todo político parece uma bala apontada para o homem que atualmente ocupa o cargo", enfatiza o jornalista.
Líbano como ferramenta de pressão
"O resultado é um primeiro-ministro sem opções e sem tempo, para quem o Líbano serve a múltiplos propósitos ", argumenta o artigo. Por um lado, atacar o Líbano envia um sinal aos seus parceiros de coalizão fragmentados de que ele priorizará Israel, mesmo que isso coloque em risco as relações com os Estados Unidos. Por outro lado, com Israel excluído das negociações com o Irã, o analista observa que o Líbano se torna "um ponto de alavancagem útil" para demonstrar seu descontentamento com o acordo emergente.
O especialista explica que os iranianos afirmaram que qualquer acordo com Washington "deve cessar os combates em todas as frentes, incluindo o Líbano". Isso permite que Netanyahu intensifique os ataques naquele país "como um veto implícito" para sabotar o ambiente diplomático necessário para que Trump finalize seu acordo.
Segundo o The Wall Street Journal, Tel Aviv também está pressionando para incluir sua "liberdade de operação" no Líbano no acordo. Se Washington conceder isso, Netanyahu ganha uma concessão; se rejeitar, o acordo fracassa e o primeiro-ministro pode alegar que se recusou a permitir que Washington comprometesse o direito de Israel à autodefesa.
Ibrahim conclui que o Líbano é "o campo de batalha onde ambos os lados pressionam por concessões ". Quando o Irã insiste em incluir o Líbano em qualquer cessar-fogo, "não está defendendo primordialmente os civis libaneses, mas sim preservando o Hezbollah". E quando Netanyahu intensifica o conflito, "está se comunicando com Trump, o Irã e seu público interno". A mensagem, segundo o analista, é clara: "Independentemente do que for assinado entre Washington e Teerã, o homem que construiu sua identidade política como 'Sr. Segurança' não permitirá que outros negociem a liberdade de atuação de Israel em suas fronteiras".