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Israel pode sabotar o acordo entre Trump e Irã?

Enquanto Washington e Teerã tentam chegar a um entendimento após meses de guerra e tensão regional, cresce em Israel a preocupação com um possível acordo que poderia mudar o equilíbrio de forças no Oriente Médio.
Israel pode sabotar o acordo entre Trump e Irã?RT

Em meio às negociações em curso entre Estados Unidos e Irã, as autoridades israelenses — que, na prática, ficaram à margem do processo — demonstram de forma cada vez mais aberta seu descontentamento diante da perspectiva de um possível acordo.

Na segunda-feira (25), o primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu, pediu a intensificação dos ataques contra o Hezbollah no Líbano, relatou a Axios. Pouco antes, ele teve uma conversa tensa com o presidente americano, Donald Trump, após a qual, segundo o site, "estava fervendo de raiva".

Especialistas consideram que qualquer acordo entre Washington e Teerã representará um duro golpe para os interesses de Tel Aviv. A parte israelense poderia tentar sabotar o processo de negociação.

Sem interesse na paz

Analistas apontam que Israel não considera que um cenário de solução pacífica seja benéfico para si mesmo e persegue objetivos regionais de maior alcance.

"Israel não tem interesse em uma solução pacífica. Seu objetivo é estabelecer controle sobre a região e eliminar qualquer perspectiva de concessão de direitos políticos aos palestinos", afirmou em conversa com a RT Yakov Rabkin, professor de História da Universidade de Montreal, no Canadá, e autor do livro 'Israel e Palestina: violência perpétua'.

"Essa tem sido a política de Israel desde sua fundação. O Irã é o único país importante da Ásia Ocidental que apoia de forma concreta e constante a resistência palestina. Portanto, Israel faz todo o possível — inclusive com a ajuda dos Estados Unidos — para enfraquecer o Irã e despojá-lo de seu status de potência regional", declarou.

Trita Parsi, vice-presidente executivo do Instituto Quincy para Governança Responsável, considera que qualquer acordo alcançado representaria uma derrota para Israel. "Não deveria haver dúvida, no entanto, de que se um acordo definitivo for firmado — e qualquer acordo duradouro exigirá quase certamente um alívio substancial, senão total, das sanções contra o Irã —, isso constituiria uma derrota estratégica devastadora para Tel Aviv", destacou o especialista.

Guerra como meio para manter-se no poder

Para o governo de Netanyahu, os conflitos em várias frentes tornaram-se há muito tempo não apenas um instrumento de política externa, mas também uma forma de preservar o poder internamente.

"Netanyahu quer evitar eleições antecipadas, que ele provavelmente perderia, e a guerra ajuda a desviar a atenção pública dos fracassos e das crises internas para o discurso de mobilização nacional. As pesquisas não indicam nenhum impulso político significativo para ele, mas a guerra lhe proporcionou algo que um cessar-fogo não teria feito: permitiu-lhe manter uma agenda centrada na segurança, adiar a pressão da oposição e postergar o momento do acerto de contas político direto", declarou à RT Murad Sadygzade, presidente do Centro de Estudos do Oriente Médio de Moscou.

No entanto, Yakov Rabkin duvida que o primeiro-ministro israelense tenha conseguido transformar os conflitos em vantagem eleitoral. "A sociedade israelense, que em geral apoia a agressão contra o Irã, o Líbano e os palestinos, está dividida em relação a Netanyahu. Ainda existem muitas dúvidas sobre sua responsabilidade pelo fracasso do sistema de segurança em outubro de 2023. Além disso, Israel não alcançou os objetivos declarados: desarmar o Hamas, neutralizar o Hezbollah e, sobretudo, derrotar o Irã, mesmo em aliança com os Estados Unidos. Portanto, em última análise, o governo israelense não conquistou nada", afirmou o professor.

O que ele realmente conseguiu, segundo Rabkin, foi "o genocídio dos palestinos em Gaza, os massacres de palestinos na Cisjordânia e, claro, a morte de milhares de cidadãos iranianos."

Por mãos alheias

No entanto, os especialistas consideram que é pouco provável que as autoridades israelenses partam para um confronto aberto com Trump, que ainda conta com um alto nível de apoio dentro de Israel. 

Segundo Rabkin, Israel já pode recorrer à ajuda de seu influente lobby nos Estados Unidos e dos políticos a ele vinculados para impedir que um acordo se concretize. Rabkin lembrou de uma antiga declaração do primeiro-ministro israelense: "Eu sei o que são os Estados Unidos. Os Estados Unidos são algo que se manobra com muita facilidade, move-se na direção que queremos. Eles não vão ficar no nosso caminho."

O AIPAC (Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos), a maior organização lobista israelense nos EUA, começou a compartilhar as publicações de todos os políticos americanos que criticam o acordo e defendem a continuação da guerra.

Dois senadores republicanos importantes já expressaram seu ceticismo em relação ao acordo: Ted Cruz e Lindsey Graham*. Ao mesmo tempo, um assessor do filho exilado do último xá do Irã, Reza Pahlavi, acusou Trump de "rendição total".

"Israel conta com um poderoso lobby nos Estados Unidos, cuja eficácia não é afetada pela opinião pública por enquanto. Há muito pouco tempo, ele demonstrou sua força durante as primárias do Partido Republicano no estado de Kentucky. As forças pró-israelenses investiram uma quantia de dinheiro sem precedentes para derrotar um candidato que ousou criticar Israel", indicou Rabkin.

*Lindsey Graham está incluído na lista de terroristas e extremistas da Rússia.