Dissuasão já não funciona como antes, enquanto risco de escalada global aumenta, alerta analista

A analista da Defense Priorities, Jennifer Kavana, argumenta que o atual ruído geopolítico está diminuindo o efeito dos sinais de dissuasão e aumentando o perigo de uma espiral crescente.

A analista militar Jennifer Kavana, do centro Defense Priorities, afirma que, fora dos conflitos em curso, o efeito das mensagens de dissuasão perde força. Em entrevista a Fiodor Lukianov na terça-feira (26), diretor de pesquisa do Clube Valdai, para o canal Rossiya-24, a analista explica que o excesso de informação e a ações híbridas dificultam a compreensão clara dessas mensagens. Isso, adverte ela, aumenta o risco de escalada.

Nas últimas duas semanas, a Rússia lançou dois sinais aos seus adversários ocidentais: os testes do foguete Sarmat e os exercícios nucleares com a Belarus.

Ambos os movimentos serviram para lembrar que seus meios de dissuasão nuclear estão prontos. No entanto, as condições atuais são muito diferentes das da Guerra Fria, e Kavana analisa como mudou a eficácia desses sinais.

Sinais eficazes apenas no âmbito do conflito

Kavana acredita que enviar sinais ainda faz sentido, embora com algumas nuances. No âmbito de um conflito ativo, a sinalização funciona.

"Vimos tanto no conflito ucraniano quanto na situação com o Irã que ambas as partes conseguiram estabelecer limites innegociáveis", afirma a analista. Os sinais nucleares russos do outono de 2022 influenciaram a ajuda militar do governo Biden à Ucrânia, e os mísseis iranianos contra Diego Garcia limitaram a reação europeia e a campanha militar dos Estados Unidos. Segundo Kavana, isso ajudou Trump a aceitar um cessar-fogo que ainda se mantém.

« ONDE FICA A ILHA DE DIEGO GARCIA E QUAL SERIA SEU PAPEL EM UM POSSÍVEL ATAQUE DOS EUA AO IRÃ? »

Fora de um conflito ativo, a situação é bem diferente. "O efeito fica mais atenuado", explica, admitindo que não é inútil, mas é muito mais difícil.

Problema do ruído informativo

A principal mudança em relação ao passado é o volume de informação disponível. As redes sociais, as imagens de satélite e a inteligência de fontes abertas tornam a atividade militar cada vez mais transparente.

"É muito mais difícil que um sinal consiga se destacar em meio ao ruído", observa Kavana. A abundância de informação também torna o "blefe" mais arriscado. Os países podem observar a base industrial de seus rivais.

Kavana cita o exemplo dos Estados Unidos na Ásia: "Não são eficazes porque todos sabem que as reservas americanas estão esgotadas e que as Forças Armadas dos EUA não conseguiriam lutar contra a China, mesmo que quisessem", afirma.

Por mais exercícios militares que Washington realize, isso não transmite um sinal claro. Segundo a analista, é "evidente para todos" que os EUA não poderiam travar agora uma guerra contra a China devido à sua fraca base industrial de defesa e às suas reservas limitadas.

Ações híbridas e risco de escalada

Embora a névoa da guerra e a propaganda sempre tenham existido, Kavana afirma que a disseminação das ações híbridas desempenha um papel fundamental.

Há atividade vinda de todos os lados: da Europa para a Rússia, da Rússia para a Europa e dos Estados Unidos para todos os lados. "Isso significa que é muito mais difícil enviar um sinal, porque o nível de atividade militar já é, por si só, muito alto", explica.

Quando há tantas ações híbridas, o clima leva os países a escalar. São obrigados a recorrer a medidas cada vez mais enérgicas para estabelecer qualquer linha vermelha. "Sinais concebidos como defensivos podem ser mal interpretados como ofensivos", adverte Kavana.

Em vez do efeito dissuasório desejado, obtém-se uma espiral de escalada diferente. A analista acredita que é exatamente isso que está acontecendo agora na Europa.

Rússia como ameaça ofensiva

Segundo Kavana, tudo o que a Rússia faz é interpretado como uma "ameaça ofensiva", e não como um sinal defensivo. Em parte, isso é intencional, pois "os líderes europeus têm um incentivo para exagerar a ameaça russa, a fim de justificar os gastos com defesa".

Essa atitude reduz ainda mais o efeito de qualquer sinal, pois resulta em uma interpretação deliberadamente distorcida.

"Tornou-se muito mais complicado enviar um sinal preciso e ter certeza de que foi interpretado como você pretendia, justamente por aqueles a quem se destinava", conclui.

Fraca reação ocidental às últimas ações da Rússia

O Ocidente preferiu agir como se não tivesse percebido os recentes sinais russos. "Acho que, em parte, isso é intencional, especialmente nos EUA: lá, deliberadamente, não querem reagir de forma muito brusca a esse tipo de coisa", explica Kavana.

O motivo, segundo ela, é que ainda existe o desejo de construir relações mais estáveis com a Rússia. Além disso, há a sensação de que esses movimentos de Moscou enviam sinais mais para a Europa do que para os EUA. Se Washington adotar uma postura moderada, confia que os europeus também não reagirão com rispidez.

Por fim, o fator tempo também influencia. "Neste momento, estão a acontecer tantas coisas no Médio Oriente, além da visita de Trump à China", recorda Kavana.

Os acontecimentos "silenciaram" a atenção geopolítica real sobre o que se passa na Europa e na Rússia. Esse é outro fator que, segundo a analista, limitou a reação.