O caso de Brayan Rayo Garzón, um migrante colombiano que se suicidou em abril de 2025 enquanto estava sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE), voltou a ganhar destaque nesta quarta-feira (27). Isso após a agência Associated Press revelar, em uma investigação, que os suicídios entre migrantes detidos pelo órgão estão aumentando de forma "alarmante".
O caso também chamou a atenção do presidente colombiano, Gustavo Petro, que instruiu a chancelaria de seu país a entregar uma nota de protesto pelo ocorrido e pediu que Washington "reflita" sobre as consequências de sua controversa política migratória.
"Um jovem colombiano se suicidou em um 'campo de concentração' do ICE do governo dos EUA. Ele queria ligar para sua mãe e não lhe permitiram. Decidiu se suicidar. A chancelaria colombiana deve entregar uma nota de protesto e o governo dos EUA deve refletir sobre como a política de imigração está matando americanos e latino-americanos", escreveu Petro na rede social X.
O que aconteceu?
De acordo com registros oficiais, Brayan Rayo permaneceu quatro dias em isolamento em uma prisão no estado do Missouri após ser detido pelo ICE. Sua angústia piorou porque, além de ter sido colocado repentinamente em duras condições de confinamento, enfrentava sintomas de covid-19 e teve adiada a resposta ao pedido apresentado para receber atendimento de saúde mental.
Além disso, ele foi proibido de entrar em contato telefônico com sua mãe sob o argumento de evitar a propagação da doença na prisão. Em meio ao desespero, escreveu duas notas à mão aos seus guardas pedindo permissão para falar com ela. Um deles recolheu o pedaço de papel e se afastou.
A nota dizia: "Eu sei que você tem família e sabe que eles se preocupam conosco. Que Deus te abençoe". O agente, que fala apenas inglês, usou o telefone de um colega para traduzir o conteúdo e escreveu em seu relatório que acompanharia o caso.
No entanto, em menos de uma hora, Brayan Rayo foi encontrado inconsciente sobre a cama de sua cela com um lençol ao redor do pescoço. Ele recebeu atendimento de emergência e foi levado a uma unidade de saúde, onde foi determinado que seu estado era crítico.
Um funcionário da prisão ligou para Adriana Rayo, mãe de Brayan, para informar que seu filho seria levado de avião a um hospital na cidade de St. Louis. No hospital, disseram a ela que ele havia morrido. A autópsia determinou que ele tirou a própria vida.
Morte evitável?
A reportagem da AP, que cita registros da penitenciária, afirma que as autoridades demoraram 35 horas para realizar em Rayo uma avaliação médica que o ICE promete concluir em um prazo máximo de 12 horas.
Naquele momento, o migrante já apresentava dificuldade para respirar e relatou a uma enfermeira que se sentia ansioso. Com base nisso, solicitou tratamento para sua saúde mental. No entanto, a profissional de saúde — que não falava espanhol — utilizou um "tradutor portátil" para cumprir o protocolo sanitário e concluiu que Rayo não havia expressado pensamentos suicidas nem apresentava quadro depressivo.
Apesar do relatado pelo migrante colombiano, a enfermeira recomendou que ele fosse integrado à população carcerária geral porque sua condição física e mental era estável. Além disso, decidiu encaminhá-lo para uma consulta rotineira de saúde mental, sem considerar que ele havia manifestado ansiedade. O protocolo do ICE estabelece um prazo máximo de uma semana para acesso aos serviços de saúde mental.
Dois dias depois, Rayo relatou dores na cabeça e no corpo. Além disso, a equipe da prisão soube que ele havia testado positivo para exposição ao bacilo da tuberculose, o que levou ao seu envio a um hospital, onde foi diagnosticado com covid-19. Quanto à consulta de saúde mental, ela foi agendada, mas depois cancelada em duas ocasiões. Na segunda vez, o motivo alegado foi o coronavírus.
Enquanto isso, Brayan buscou refúgio em uma ligação noturna para sua mãe para aliviar sua crescente ansiedade, mas pouco depois esse benefício lhe foi retirado. Com a piora de seu estado devido à covid, foi transferido para uma cela de isolamento com câmera de vigilância. O objetivo era duplo: mantê-lo sob observação mais rigorosa e evitar a propagação do vírus. Foi ali que ele tirou a própria vida.
Além das falhas nos protocolos identificadas pela agência americana, não ficou claro como um prisioneiro sob vigilância constante conseguiu cometer suicídio sem que ninguém percebesse a situação de risco a tempo.
De acordo com a AP, desde janeiro de 2025, quando começou o segundo mandato do presidente Donald Trump, pelo menos 10 detidos, todos homens, tiraram a própria vida enquanto estavam sob custódia do ICE.