Fim da paciência: o que significa o anúncio da Rússia sobre ataques sistemáticos a Kiev

Com este novo passo, dado em resposta ao ataque terrorista perpetrado em Kiev contra os estudantes, a Rússia envia uma mensagem direta não apenas à Ucrânia, mas também aos aliados europeus de Vladimir Zelensky.

A Rússia anunciou, na segunda-feira (25), o início de ataques sistemáticos contra empresas do complexo militar-industrial de Kiev. A ação ocorre em resposta ao ataque terrorista perpetrado pelo regime ucraniano contra o alojamento estudantil de Starobelsk, na República Popular de Lugansk, que até o momento deixou 21 estudantes mortos.

"Tudo isso esgotou a paciência. Nas atuais condições, as Forças Armadas da Federação da Rússia estão começando a realizar ataques sistemáticos contra empresas da indústria de defesa ucraniana em Kiev", anunciou o Ministério das Relações Exteriores russo.

O ministro das Relações Exteriores do país, Sergey Lavrov, informou ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre a necessidade de evacuar o pessoal diplomático americano e de outros países da capital ucraniana.

Especialistas apontam que, com essas medidas, Moscou passa para uma "escalada controlada", considerada previsível há muito tempo em resposta às ações terroristas cada vez mais ativas do regime de Kiev, além de enviar um sinal aos aliados europeus de Vladimir Zelensky.

Terrorismo diante do colapso na frente de batalha

Ao comentar o ataque contra Starobelsk, o presidente russo, Vladimir Putin, destacou que as razões para esse comportamento por parte de Kiev são evidentes.

"São os constantes fracassos na frente de batalha, a perda de posições, localidades e territórios", declarou, acrescentando que a situação das forças ucranianas está passando gradualmente "de complicada e crítica para catastrófica". Segundo ele, nem mesmo o apoio do Ocidente ajuda, já que "ele diminui constantemente, mas eles não podem simplesmente desistir".

"Quero enfatizar isso, e é importante: não há instalações militares, serviços especiais nem estruturas relacionadas perto do alojamento estudantil. Portanto, não há base para afirmar que os projéteis atingiram o edifício sob influência dos nossos sistemas de defesa aérea ou de guerra eletrônica", acrescentou.

Kiev quer envolver a Europa em um conflito direto com a Rússia

O ataque contra Starobelsk não é a primeira medida tomada pela Ucrânia neste mês para intensificar o conflito com a Rússia. Além das ameaças de atacar o desfile russo em Moscou no Dia da Vitória sobre o nazismo — data comemorativa central para os russos —, o regime de Kiev intensificou cada vez mais os ataques com drones contra alvos russos a partir de terceiros países.

Nas últimas semanas, drones ucranianos foram avistados sobre os territórios da Letônia, Lituânia, Estônia e Finlândia, cujos espaços aéreos vêm sendo utilizados para lançar ataques constantes contra alvos russos.

Esses voos frequentes de drones não são casuais e respondem a uma estratégia evidente de Kiev: envolver outros países no conflito com a Rússia. No entanto, os próprios países bálticos, apesar de sua retórica antirrussa, dificilmente desejariam um cenário desse tipo.

Nesse contexto, o Serviço de Inteligência Externa da Rússia (SVR, na sigla em russo) afirmou que a Ucrânia está se preparando para lançar ataques contra a Rússia a partir do território da Letônia e advertiu que a adesão do país à OTAN não o protegerá de um "castigo justo".

"Neste contexto, convém recordar que as coordenadas dos centros de tomada de decisão em território letão são bem conhecidas e que a adesão do país à OTAN não protegerá os cúmplices dos terroristas de um castigo justo", destacou o SVR.

Uma necessidade racional

Especialistas apontam que a transição para ataques sistemáticos contra Kiev é uma resposta necessária diante da escalada de ataques terroristas.

"A passagem para uma estratégia de 'escalada controlada' me parece uma necessidade racional", opinou Andrey Ilnitsky, analista militar e membro do presidium do Conselho de Política Externa e Defesa da Rússia.

"O inimigo deve compreender que cada passo que dermos rumo à escalada transmitirá um sinal claro da seriedade das nossas intenções, da inevitável ampliação do alcance dos ataques e dos meios de destruição, demonstrando que os limites da contenção anterior se esgotaram e que o próximo golpe será ainda mais doloroso e os danos, mais extensos", acrescentou.

A mesma avaliação foi compartilhada por Dmitry Suslov, vice-diretor do Centro de Estudos Europeus e Internacionais Integrados da Escola Superior de Economia da Rússia.

"O ataque brutal das Forças Armadas da Ucrânia contra Starobelsk foi o ponto culminante do aumento da atividade terrorista contra a Rússia, que já vinha ocorrendo há vários meses e incluía ataques cada vez mais amplos e de longo alcance contra alvos civis no interior do território russo", afirmou.

Além disso, o especialista destacou que as elites europeias também estão envolvidas nesse tipo de ataque de Kiev, na esperança de frustrar as negociações entre Rússia e Estados Unidos.

"A Europa tem relação direta com esses ataques, já que em seu território ocorre a produção de parte significativa dos drones ucranianos, parte desses drones é lançada a partir de seu território e ela fornece a Kiev uma parcela importante das informações de inteligência utilizadas nesses ataques", declarou Suslov.

"Ao mesmo tempo, Europa e Kiev buscam, ao frustrar as negociações mediadas pelos Estados Unidos, obrigar a Rússia a fazer concessões que tornem impossível, em princípio, falar em vitória. Nesse contexto, o início de ataques sistemáticos contra Kiev tem como objetivo demonstrar que o custo dessa estratégia para o regime de Kiev pode se tornar insustentável", concluiu, ressaltando que a decisão de Moscou também envia um sinal às elites europeias de que, se continuarem nesse caminho, poderão acabar envolvidas diretamente em um conflito.