Notícias

'Magnifica humanitas' vs. IA: o que diz a primeira encíclica do Papa Leão XIV

Documento busca evitar que a automatização se transforme em uma desculpa para a desumanização do ambiente de trabalho, o desemprego e a escravidão.
'Magnifica humanitas' vs. IA: o que diz a primeira encíclica do Papa Leão XIVSimone Risoluti / Vatican Media / Gettyimages.ru

O Papa Leão XIV apresentou nesta segunda-feira (25) sua primeira carta encíclica, "Magnifica humanitas", que estabelece a doutrina social da Igreja Católica em tempos de inteligência artificial.

O documento foi assinado na quinta-feira (15), em comemoração ao 135.º aniversário da histórica "Rerum novarum", de 1891, a encíclica fundadora do Papa Leão XIII sobre os direitos dos trabalhadores durante a era industrial.

Com o novo texto, Leão XIV busca atualizar a doutrina social da Igreja e pretende evitar que a automatização se transforme em uma desculpa para a desumanização do ambiente de trabalho moderno, o desemprego e a escravidão do ser humano por meio das novas tecnologias.

O documento está estruturado em uma introdução, cinco seções e um encerramento, e apresenta os seguintes pontos centrais:

A dignidade do ser humano como valor supremo

O texto alerta para os perigos da construção de uma "torre de Babel" digital, e ressalta que plataformas tecnológicas e sistemas algorítmicos devem estar orientados ao bem-estar humano, e não o contrário.

"Não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo artefato técnico carrega consigo decisões e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situações. Se um sistema é concebido ou utilizado tratando algumas vidas como menos dignas, ou as exclui sem possibilidade de recurso, não se trata de um simples instrumento que 'deve ser usado corretamente'; ele já introduz um critério que contradiz a dignidade inalienável da pessoa", afirma o texto.

Perigos de uma elite tecnológica sem controle

O documento alerta para um avanço tecnológico desmedido e sem limites éticos, que poderia servir apenas para consolidar o poder de poucos, excluir pessoas já vulneráveis ou retirar a humanidade das relações sociais.

"Não serviria de nada uma IA mais moral se essa moral fosse decidida por poucos. É necessária uma política mais presente, capaz de desacelerar onde tudo acelera e de proteger os espaços nos quais as comunidades possam continuar participando e questionando", afirma a "Magnifica humanitas".

Transparência, regulação e diálogo multidisciplinar

A encíclica exige mecanismos claros de prestação de contas, acordos internacionais e um espaço de debate que integre teologia, ciências sociais e representantes do setor tecnológico.

"Não basta invocar genericamente a ética; são necessários marcos jurídicos adequados, fiscalização independente, educação dos usuários e uma política que não renuncie à sua tarefa. Caso contrário, a mudança será governada apenas por lógicas tecnocráticas e apresentada como necessária e inevitável, terminando por impor regras ditadas por quem possui dados, infraestrutura e capacidade de cálculo", adverte o documento.

Impacto na paz, no emprego e na equidade social

O texto analisa como a inteligência artificial afeta áreas como o trabalho digno, a automatização de sistemas armamentistas — com menção especial às armas autônomas — e a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.

"Ao contrário dos benefícios anunciados sobre a IA, as abordagens atuais da tecnologia podem, paradoxalmente, desespecializar os trabalhadores, submetê-los a vigilância automatizada e relegá-los a tarefas rígidas e repetitivas. A necessidade de acompanhar o ritmo da tecnologia pode corroer o senso da própria capacidade de ação dos trabalhadores e sufocar as capacidades inovadoras que são chamados a aportar em seu trabalho. Precisamente para evitar esse desvio, é necessário desenvolver sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho", destaca o documento.

"A inteligência artificial precisa ser desarmada"

Durante a apresentação da encíclica, o Papa Leão XIV utilizou termos contundentes ao afirmar que "a inteligência artificial precisa ser desarmada" e "libertada de lógicas que a transformam em um instrumento de dominação, exclusão e morte".

"A palavra é forte, eu sei, mas foi escolhida deliberadamente, porque este momento precisa de palavras capazes de chamar a atenção, despertar consciências e indicar caminhos para a humanidade", afirmou.

"A paz, e não apenas a ausência de guerra, é a justiça em ação, mas quando a tecnologia enfraquece nosso senso crítico, a própria paz está em perigo", advertiu.