
Minas, taxas e ameaça de intervenção militar: o que está acontecendo no Estreito de Ormuz?

O Estreito de Ormuz, artéria vital para o comércio mundial e principal foco de tensão entre Estados Unidos e Irã, permanece praticamente paralisado, apesar da frágil trégua em vigor.

O tráfego marítimo pelo estreito foi drasticamente reduzido por ameaças de minas, risco de sequestro de navios e recusa das seguradoras em cobrir as operações na região. Como resultado, as cadeias de suprimentos globais permanecem sob grande pressão.
« ENTENDA PORQUE O ESTREITO DE ORMUZ É A VERDADEIRA ARMA DO IRÃ EM NOSSO ARTIGO »
A situação está tomando formas cada vez mais incomuns: enquanto a OTAN discute a possibilidade de escoltar Navios militarmente, Teerã está propondo seu próprio sistema de seguro baseado em criptomoedas.
OTAN debate uma intervenção
Na terça-feira (19), Bloomberg informou, citando fontes, que os países da Aliança Atlântica estudam a possibilidade de fornecer escolta militar a navios mercantes no Estreito de Ormuz caso a situação não seja normalizada até julho. O ideia tem apoio de alguns integrantes do bloco, mas ainda não há consenso.
A agência observa que, mesmo em caso de acordo, não está claro como a OTAN poderia realizar tal operação, considerando que os Estados Unidos ainda não conseguiram controlar a situação no estreito.
Irã lança sistema próprio de seguros
Em meio à crise marítima, Teerã começou promover um mecanismo alternativo de seguro de transporte chamado Hormuz Safe. A plataforma oferece seguro para cargas que passam pelo estreito e um sistema de "verificação criptografada" para embarcações que operam na região.
Os pagamentos seriam feitos com criptomoedas, incluindo bitcoin. Segundo estimativas iranianas, o programa poderia gerar mais de US$ 10 bilhões de dólares por ano.
Trânsito está se recuperando gradualmente
Apesar dos riscos que persistem, o tráfego marítimo pelo estreito começou gradualmente a ser retomado. De acordo com o Lloyd's List, portal de rastreamento de navios, na semana passada passaram por Ormuz pelo menos 54 navios, dez deles relacionados à China. Isso é mais que o dobro dos números da semana anterior.
Os números, no entanto, ainda estão muito abaixo dos níveis anteriores à guerra: cerca de três mil navios por mês costumavam atravessar o estreito, mas em abril o número caiu para 191.
Na quarta-feira (20), Bloomberg informou que a Índia, que importa cerca de 55% do petróleo que consome dos países do Golfo Pérsico, está fazendo os preparativos finais para enviar seus navios ao estreito para carregar recursos energéticos.
No mesmo dia, as autoridades iranianas afirmaram que só nas últimas 24 horas permitiram a passagem de 26 embarcações.
Novo foco de risco
Em meio às ameaças de Donald Trump de retomar ataques, aumentam os alertas iranianos sobre a possível imposição de tarifas sobre o uso dos cabos submarinos de fibra óptica que atravessam o Estreito de Ormuz. Esses cabos conectam a região à infraestrutura digital global e transportam uma parcela significativa das transações financeiras internacionais.
A ideia de usar essa infraestrutura como uma ferramenta de pressão foi levantada pela primeira vez em maio em uma publicação da agência Iraniana Tasnim, que propôs "três passos práticos": cobrar taxas de licença para empresas estrangeiras pelo uso dos cabos, forçando gigantes da tecnologia como Meta*, Google, Amazon e Microsoft a operar de acordo com as leis do Irã e monopolizar o reparo e a manutenção dessa infraestrutura.
"Vamos cobrar impostos sobre cabos de internet", afirmou o porta-voz do exército Iraniano, Ebrahim Zolfaghari.
Embora Irã não ameaça abertamente atacar cabos submarinos, tem os meios necessários para isso — mergulhadores de combate, drones subaquáticos e pequenos submersíveis — afirma Alan Mauldin, diretor de pesquisa da TeleGeography. Ele acrescenta que qualquer ataque poderia desencadear uma "catástrofe digital" em cadeia, afetando vários continentes.
A conexão com a internet e os sistemas bancários dos países do Golfo Pérsico podem estar ameaçados. O especialista ressalta que o Estreito de Ormuz é um corredor digital fundamental entre data centers asiáticos, como Cingapura, e algumas estações de pouso de cabos na Europa.
Além disso, qualquer interrupção poderia desacelerar as operações financeiras e transações transfronteiriças entre a Europa e a Ásia, enquanto algumas áreas da África Oriental sofreriam interrupções na internet. Os danos poderiam ser muito maiores se os Houthis do Iêmen dessem um passo semelhante e atacassem outros cabos no Mar Vermelho.



