Fezes de vaca: a nova arma da União Europeia contra a Rússia

Bloco europeu aposta no uso de esterco para reduzir a dependência de fertilizantes russos em meio à crise no setor. A iniciativa, no entanto, provocou insatisfação entre agricultores e representantes da indústria.

A União Europeia (UE) busca conter a crise de fertilizantes que ameaça impactar os preços dos alimentos. Para tentar reduzir sua dependência de produtos russos, o bloco pretende ampliar o uso de esterco de vaca e outros resíduos pecuários e agrícolas, como substitutos, informou o Politico, na segunda-feira (18).

A Comissão Europeia apresentará nesta semana um plano para reforçar o abastecimento, embora a reportagem destaque que ele se baseia principalmente em mudanças regulatórias de longo prazo, e não em medidas imediatas para conter imediatamente a alta dos custos.

Segundo o Politico, a Europa produz grande parte de seus fertilizantes a partir de gás importado como matéria prima. 

Após o fechamento do Estreito de Ormuz no fim de fevereiro, os preços do gás dispararam e o mercado global de fertilizantes se ajustou, deixando os preços cerca de 70% acima dos níveis de 2024.

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Nesse contexto, rascunhos do plano, obtidos pelo veículo, incluem ajustes em normas já existentes, como disposições da Diretiva de Nitratos, que regula fertilizantes ricos em nitrogênio derivados de esterco animal processado, além da ampliação de algumas regras para digestatos, subprodutos do biogás.

"Planos não pagam contas"

Ao mesmo tempo, Bruxelas deixou de fora medidas imediatas, como suspender tarifas sobre importações da Rússia e Belarus ou pausar a taxa europeia sobre importações intensivas em carbono.

A eurodeputada Veronika Vrecionová, presidente da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu, criticou a abordagem. "Os agricultores esperavam uma ação ousada. Planos não pagam as contas. Os agricultores precisam de ação, não de intenções", declarou.

Na mesma linha, José María Castilla, da organização agrária espanhola ASAJA, alertou: "Os agricultores europeus não podem esperar por outro plano de longo prazo enquanto os custos de produção continuam subindo e a capacidade europeia de fertilizantes segue desaparecendo".

Ele acrescentou que a crise "não é apenas de preços", mas também de "autonomia estratégica, segurança alimentar e sobrevivência da agricultura europeia".