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Caos no Oriente Médio abre caminho para retorno de piratas da Somália

O bloqueio do Estreito de Ormuz está obrigando navios comerciais a contornar a África e atravessar áreas cada vez mais perigosas do oceano Índico, onde a pirataria somali voltou a crescer após anos de relativa calmaria.
Caos no Oriente Médio abre caminho para retorno de piratas da SomáliaJason R. Zalasky / U.S. Navy / Gettyimages.ru

As consequências da guerra no Oriente Médio estão assumindo formas cada vez mais inesperadas e preocupantes.

Devido ao bloqueio "de fato" do Estreito de Ormuz — uma artéria-chave do comércio mundial pela qual antes passavam até 20 milhões de barris de petróleo por dia —, empresas de navegação estão sendo obrigadas a alterar suas rotas com urgência.

Em vez do caminho mais curto, petroleiros e cargueiros passaram a contornar a África pelo sul do continente. Isso prolonga as viagens por semanas e, ao mesmo tempo, desvia o fluxo marítimo para a região da Somália, área que voltou a se tornar perigosa devido ao ressurgimento da pirataria.

O que está acontecendo?

Diante do agravamento da situação na região, piratas somalis intensificaram suas atividades e capturaram vários navios.

Segundo um alerta de 12 de maio do Escritório de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO), piratas somalis mantêm atualmente sob seu controle ao menos três embarcações: dois petroleiros e um cargueiro capturados entre 21 de abril e 2 de maio.

O Centro de Segurança Marítima do Oceano Índico, serviço de monitoramento da Força Naval da União Europeia, emitiu um alerta para que embarcações na região "mantenham um elevado nível de vigilância", especialmente em um raio de 150 milhas náuticas da costa somali entre Mogadíscio e Hafun, no oceano Índico.

O retorno de uma antiga ameaça

A pirataria na costa da Somália, especialmente na região semiautônoma de Puntland, aumentou drasticamente entre 2008 e 2013, antes de patrulhas internacionais e medidas reforçadas de segurança conseguirem conter a onda de ataques. Na época, a situação também foi agravada pela ausência de um governo central estável no país.

No auge da atividade, em 2011, foram registrados 237 ataques, enquanto os danos à economia mundial foram estimados em cerca de R$ 13,0 bilhões na cotação da época. Mais de 3.800 marinheiros sofreram ataques armados ao longo daquele ano.

Após um período de relativa calmaria, a atividade voltou a crescer no fim de 2023, em meio à crise no mar Vermelho e aos ataques dos houthis.

Vácuo de segurança

Em resposta a essa crise, assim como ao atual conflito no Oriente Médio, diversos países foram obrigados a concentrar mais forças no mar Vermelho e no Golfo Pérsico, deixando a costa somali menos protegida.

"Assim, surgiu um vácuo de segurança nesse local, e foi então que esses grupos conseguiram se aproveitar da situação", afirmou David Willima, pesquisador de segurança marítima do Instituto de Estudos de Segurança da África do Sul.

"A guerra no Irã obrigou certos Estados que normalmente estariam focados em patrulhar o oceano Índico ocidental da África a priorizar uma possível força multinacional para abrir o Estreito de Ormuz", declarou à CNN Manu Lekunze, professor de Relações Internacionais da Universidade de Aberdeen, na Escócia.

"O redeslocamento das forças para o Golfo Pérsico criou oportunidades, ativando redes que podem realizar missões específicas de pirataria", acrescentou.