
O que está por trás da visita de Putin à China?

As relações entre Rússia e China — as duas maiores potências da Eurásia — ganham especial importância em um contexto de crescente instabilidade global e desmoronamento da antiga arquitetura de segurança.
Na véspera de sua visita à China, o presidente russo, Vladimir Putin, destacou que justamente a cooperação entre Moscou e Pequim está se tornando hoje um dos fatores-chave para a estabilidade internacional.

"Afinal, os tratados que regulavam a esfera da segurança, do desarmamento e do controle das armas nucleares praticamente desapareceram. E a cooperação entre Estados como China e Rússia é, sem dúvida, um fator de contenção e estabilidade", declarou o líder russo.
A visita de Putin à China começa nesta terça-feira (19), quando se comemora o 25.º aniversário da assinatura do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação. Em Moscou e Pequim, espera-se que o encontro seja um passo importante para continuar aprofundando a parceria estratégica.
Novos horizontes de cooperação
A Rússia é o maior fornecedor de petróleo da China, representando cerca de 20% do total de suas importações desse hidrocarboneto. No contexto da crise em torno do estreito de Ormuz, a importância da colaboração só aumentou: as importações chinesas de petróleo bruto russo nos primeiros meses de 2026 aumentaram mais de 40% em comparação com o ano passado, permitindo que Pequim reduzisse os riscos para sua própria segurança energética.
Ao mesmo tempo, as partes continuam colocando em prática projetos de infraestrutura em grande escala. Assim, em setembro de 2025, os países assinaram, junto com a Mongólia, um memorando para a construção dos gasodutos Força da Sibéria 2 e União-Oriente, que fornecerão gás russo ao gigante asiático através da Mongólia.
A assinatura do acordo foi anunciada pelo diretor-geral da empresa energética russa Gazprom, Alexey Miller. "O projeto permitirá fornecer da Rússia 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano através da Mongólia", afirmou Miller, acrescentando que será o projeto "maior, mais ambicioso e com maior investimento de capital na indústria do gás em nível mundial".
Atualmente funciona o gasoduto Força da Sibéria, que conecta os dois países e transporta gás dos campos de Kovyktinskoye, na província de Irkutsk, e Chayandinskoye, em Yakutia, até os consumidores russos do Extremo Oriente e da China. O comprimento da tubulação supera os 3.000 km e sua capacidade de exportação é de 38 bilhões de metros cúbicos por ano.

Não apenas petróleo
A cooperação energética entre Moscou e Pequim há muito ultrapassou os limites dos hidrocarbonetos tradicionais. Ambas as nações se tornaram líderes mundiais no que diz respeito ao ritmo de construção de usinas nucleares.
Desde 2016, mais de 90% das novas usinas nucleares do mundo foram construídas justamente por empresas russas ou chinesas. A Rússia já construiu quatro unidades de energia na China e está construindo outras quatro.
"A China tem planos grandiosos para o desenvolvimento da energia nuclear. Estabeleceu a meta de alcançar e superar os Estados Unidos em capacidade instalada, o que significa atingir mais de 100 gigawatts", indicou o diretor da empresa energética russa Rosatom, Alexey Likhachov. "Estamos ajudando: já construímos quatro reatores nucleares e estamos construindo outros quatro, cada um com capacidade superior a um gigawatt", acrescentou.
Anteriormente, em abril deste ano, a Rússia também forneceu pela primeira vez combustível para a usina nuclear chinesa de Xudapu, uma importante instalação de energia nuclear em construção situada na província de Liaoning.
Mensagem ao mundo
Em Moscou e Pequim, não escondem suas grandes expectativas diante das próximas negociações. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, declarou que a cooperação entre ambos os países em diferentes esferas "continua se expandindo".
Ele acrescentou que, nos últimos anos e sob a direção estratégica dos presidentes Xi e Putin, a parceria estratégica abrangente de coordenação "para uma nova era" se desenvolveu de maneira "sólida, constante e profunda".
"Temos grandes expectativas em relação a esta visita", afirmou por sua vez o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.
Especialistas sustentam que ambos os países mostram cada vez mais abertamente que compartilham abordagens sobre a ordem global.
"Rússia e China concordam quanto à ordem mundial, opondo-se à hegemonia, à unipolaridade, à política de sanções do Ocidente e ao fato de que os Estados Unidos e seus satélites imponham suas regras e visões de mundo", afirmou Pavel Troshchinski, diretor do Centro de Estudos Políticos e Prognósticos do Instituto da China e Ásia Contemporânea da Academia de Ciências da Rússia.
"Nisso sempre seremos solidários com a China, formando uma espécie de frente única na luta pela verdade histórica, que o Ocidente distorce", acrescentou.
Por sua vez, Zhao Long, pesquisador principal do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, descreveu a visita de Putin como "uma oportunidade-chave" para as relações bilaterais. Manifestou que em 2026 se cumpre o 30.º aniversário da parceria estratégica entre China e Rússia e o 25.º aniversário do tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação.
"Espera-se que a visita de Putin aborde a renovação do tratado e, nesta conjuntura histórica, explore como levar a cooperação a um nível estratégico mais alto para responder à turbulência e às mudanças externas, e para aprofundar a cooperação pragmática", disse.


