Os Estados Unidos e o Irã estão a um passo de uma nova guerra, e a frágil trégua se assemelha cada vez mais a uma breve pausa em um conflito prolongado.
Apesar das declarações públicas sobre o desejo de se evitar uma escalada, Washington e Teerã continuam avançando por um caminho em que qualquer novo confronto poderia mergulhar novamente a região em uma guerra em grande escala.
Trégua à beira do colapso
Na segunda-feira (11), o presidente dos EUA, Donald Trump, reconheceu a fragilidade das negociações com o Irã. O chefe da Casa Branca declarou que o cessar-fogo está "na UTI" e classificou a última proposta de Teerã como "um pedaço de lixo" que "nem sequer terminou de ler".
Já a CNN informou na terça-feira (12), citando fontes, que Trump se sente "cada vez mais frustrado" com a forma como o Irã está conduzindo as negociações, enquanto vários oficiais americanos se perguntam se Teerã estaria disposta a participar.
Segundo a publicação, Trump está "considerando agora mais seriamente a retomada de operações de combate em grande escala", e alguns funcionários do Pentágono compartilham dessa postura, pois acreditam que os ataques contínuos poderiam convencer o Irã a ceder.
A decepção do presidente americano vem depois que ambas as partes abriram fogo na semana passada no estreito de Ormuz, embora o próprio Trump tenha garantido que, apesar disso, a trégua "continua em vigor".
As duas partes querem a trégua
Em conversa com a RT, Maxim Gabrielian, analista do Instituto de Economia e Estratégia Militar Mundial da Escola Superior de Economia de Moscou, destacou que ambas as partes estão agora interessadas em manter a trégua.
Nos Estados Unidos, começa a campanha eleitoral para o Congresso, e as ações bélicas no Irã correm o risco de minar as posições dos republicanos, que já por si só poderiam perder a Câmara dos Representantes.
"Trump claramente não quer agora que a situação se agrave antes de sua reunião com Xi Jinping, o que também é muito importante. Pois é evidente que o primeiro ataque contra o Irã no final de fevereiro esteve, em parte, relacionado a conter a China", acrescentou.
"Trump queria chegar a Pequim em uma posição mais forte, mas essa estratégia não funcionou"
"Agora Trump precisa manter sua posição de alguma forma na reunião com o líder chinês. E a retomada das hostilidades no Irã claramente não servirá a esse propósito", destacou o especialista.
Quanto ao Irã, Gabrielian estima que Teerã está satisfeita com o "status quo" no qual Washington se vê obrigado a negociar não apenas sobre o programa nuclear iraniano, mas também sobre o status do Estreito de Ormuz.
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A guerra não desapareceu
No entanto, apesar do desejo de tregua, a ameaça de uma nova guerra continua extremamente alta.
Gabrielian aponta Israel como um dos principais fatores de instabilidade, já que Tel Aviv não participa formalmente das negociações. "Israel é uma parte à margem de toda essa história. E é evidente que a situação atual não lhe convém", observa o especialista, que acrescenta o conflito em curso no Líbano como uma fonte adicional de tensão.
No entanto, o principal risco reside no fato de que as partes ainda não estão dispostas a fazer concessões para chegar a um acordo, adverte . "Trump, evidentemente, não tem vontade de fechar um acordo que pareça igual, ou pior, do que o acordo nuclear de Barack Obama. Porque Trump será imediatamente acusado de ter assinado exatamente o mesmo acordo, só que, além disso, provocou um conflito armado por sua culpa. E a Trump, evidentemente, isso não convém. Ele quer alcançar algum tipo de acordo mais revolucionário que lhe permita ser considerado uma figura histórica", avalia Gabrielian.
O analista militar Serguey Poletayev declarou à RT que cada uma das partes está interessada em derrotar o inimigo, mas que, por enquanto, não encontrou uma maneira de fazê-lo.
"Ninguém está interessado na retomada das hostilidades. Mas sim, tanto o Irã quanto os Estados Unidos e Israel estão interessados em derrotar o inimigo. O problema é que, na rodada anterior, nenhuma das partes conseguiu infligir uma derrota estratégica à outra. E por isso agora são totalmente incapazes de chegar a um acordo e resolver a questão de forma pacífica", observou o especialista.
"Ao mesmo tempo, ninguém quer continuar lutando, porque não está claro como derrotar o inimigo e infligir-lhe uma derrota estratégica. Nem os Estados Unidos nem o Irã conseguiram os meios para isso. Por isso, esta guerra tem um toque de absurdo. A lógica militar sugere que essa situação não pode se prolongar indefinidamente, especialmente com o estreito bloqueado, pois o tempo está passando. E as hostilidades devem ser retomadas, mas não podem ser até que uma das partes descubra como derrotar o inimigo e esteja convencida de que conseguirá", concluiu.