Dois gigantes em um mundo de tensão: confira detalhes da visita de Trump à China

Espera-se que os presidentes dos EUA e da China discutam comércio bilateral, conflito em torno do Irã, situação em Taiwan e outras questões de interesse mútuo.

O presidente dos EUA, Donald Trump, chegará a Pequim no dia 13 de maio para uma visita de Estado de dois dias, a primeira de um presidente dos Estados Unidos em oito anos. A visita ocorrerá em meio a anos de acusações mútuas, guerra comercial, vários conflitos globais, rivalidade tecnológica e tensões em torno de Taiwan.

A agenda inclui, na quinta-feira (14), uma reunião bilateral com o presidente chinês, Xi Jinping, uma visita ao Templo do Céu e um banquete de Estado, bem como um almoço de trabalho na sexta-feira (15). Espera-se que Trump e Xi tentem estabilizar as relações entre seus países por meio de acordos mutuamente benéficos e que procurem reduzir as tensões em uma série de questões da agenda internacional nas quais suas posições divergem.

O que está em pauta?

Ainda não foi anunciado oficialmente quais temas serão discutidos pelos presidentes, mas tanto do lado chinês quanto do lado americano circulam algumas hipóteses sobre o que será incluído na agenda das conversas.

Autoridades americanas afirmam que serão discutidas as compras chinesas de aeronaves Boeing, carne bovina e soja americanas, bem como a criação de um conselho de investimentos e de um conselho de comércio, ambos órgãos destinados a facilitar o comércio entre os dois países. A parte chinesa considera que as negociações se concentrarão nos "Três T", que incluem tarifas, tecnologias e a questão de Taiwan.

Irã e petróleo

Prevê-se que um dos temas das conversas seja a guerra dos EUA e Israel contra o Irã e suas implicações para o comércio mundial e o mercado de energia, que se encontra em crise em consequência do bloqueio do Estreito de Ormuz por parte de Teerã.

Um funcionário norte-americano indicou que Trump tentará pressionar a China para que use sua influência junto ao Irã e o convença a abrir a crucial rota marítima e chegar a um acordo de paz com Washington.

Também poderiam ser abordadas as sanções americanas contra as empresas petrolíferas chinesas acusadas de comprar petróleo iraniano, cujo cumprimento a China proibiu. No início de maio, o Ministério do Comércio da China destacou que o país asiático "sempre se opôs às sanções unilaterais que carecem de autorização da ONU ou de fundamento no direito internacional".

Comércio

Na visita, Trump estará acompanhado pelos diretores executivos de mais de uma dezena das maiores empresas americanas, entre as quais se encontram a Apple, a Cisco, a Tesla, a Goldman Sachs, a Mastercard, a Visa, a Blackrock e outras. Entre eles estará também o diretor executivo da Boeing, Kelly Ortberg, que tentará fechar um acordo com as companhias aéreas chinesas para a compra de cerca de 500 aeronaves 737 MAX, bem como de dezenas de outros modelos de aeronaves, em uma operação que poderia chegar a dezenas de bilhões de dólares.

Outro tema de grande importância será provavelmente a exportação de elementos de terras raras, que a China restringiu em resposta às tarifas de Trump. No final de 2025, Washington e Pequim chegaram a um acordo comercial preliminar, pelo qual as tarifas americanas foram reduzidas de 145% para 19-24%, e a China retomou a exportação de elementos de terras raras. No entanto, a vigência desse acordo termina em novembro.

Analistas afirmaram à revista The Guardian que, nas negociações, Pequim tentará prorrogar a trégua comercial em vigor, manter o acesso às tecnologias americanas e suspender ou revogar o endurecimento dos controles de exportação dos EUA. Em troca, poderiam ser oferecidos investimentos na economia americana, acordos com empresas ou um acordo comercial estável de longo prazo sobre o fornecimento de minerais de terras raras, o que constituiria uma licença geral para o acesso dos EUA a elementos de terras raras e ímãs de terras raras, com a condição de que não sejam utilizados para fins militares.

Taiwan

Trump e Xi também terão de discutir a questão de Taiwan, que tem uma administração própria desde 1949, enquanto a China a considera como uma parte inalienável de seu território e a maioria dos países, incluindo a Rússia e o Brasil, reconhece a ilha como parte integrante da República Popular da China.

Na véspera da visita, Pequim destacou que Taiwan continua sendo uma questão prioritária em suas relações com Washington. "A questão de Taiwan afeta os interesses fundamentais da China e constitui a primeira linha vermelha que não pode ser ultrapassada nas relações entre a China e os Estados Unidos", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian.

Alguns especialistas destacaram que a China poderia insistir para que o governo Trump modifique sua retórica oficial em relação a Taiwan, manifestando sua oposição à independência da ilha. Autoridades americanas, entre elas Mira Rapp-Hooper, que foi a principal assessora da Casa Branca para a região durante a presidência de Joe Biden, indicaram que uma mudança desse tipo na retórica é improvável, embora não tenham descartado a possibilidade de Trump fazer concessões a Xi nessa questão.

Possíveis resultados

Analistas divergem quanto aos possíveis resultados da visita de Trump à China. Drew Thompson, ex-diretor para a China, Taiwan e Mongólia no Gabinete do Secretário de Defesa e atualmente pesquisador na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura, afirmou que se mostra "cético" quanto à possibilidade de se alcançarem resultados concretos na reunião. "A probabilidade de algo substancial surgir dessas conversas é praticamente nula", concordou com ele Allen Carlson, especialista em China da Universidade de Cornell.

Jonathan Sullivan, diretor de programas sobre a China no Instituto de Pesquisa Asiática da Universidade de Nottingham, afirmou que, diante das negociações, a China "encontra-se em uma posição bastante confortável", já que "superou a crise energética melhor do que, na minha opinião, muitos esperavam, e observa como os Estados Unidos são arrastados para o caos que eles mesmos criaram".

Alguns especialistas afirmaram que Trump está em uma posição vulnerável e que mesmo o anúncio de que a reunião foi um sucesso poderia causar, em vez de uma reação positiva por parte da opinião pública, apenas questionamentos sobre quais concessões o presidente americano fez para chegar a um entendimento com Pequim. "Na verdade, acredito que uma reunião muito positiva e bajuladora poderia ser, de certa forma, o pior resultado possível, porque assustaria o resto da região […] Se Pequim estiver muito satisfeita com o desenrolar da reunião, provavelmente será um sinal preocupante, de certa forma, para os Estados Unidos e nossa posição diante do futuro", afirmou Jonathan Czin, ex-especialista da CIA na China que agora trabalha na Brookings Institution.