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Endividados por Mickey Mouse: fenômeno dos 'adultos Disney' arruína vidas nos EUA

Deixar-se levar pela 'magia' dos parques temáticos costuma gerar dívidas de milhares de dólares entre visitantes.
Endividados por Mickey Mouse: fenômeno dos 'adultos Disney' arruína vidas nos EUAJoseph Prezioso / Anadolu Agency / Gettyimages.ru

A fantasia na Disney não é gratuita. Segundo reportagem publicada no sábado (2) pela The New Yorker, isso é bem conhecido por quem acumula milhares de dólares em dívidas para "viver a magia" nos parques temáticos do conglomerado.

Uma visita a esses espaços recreativos para "realizar sonhos" pode resultar em uma realidade mais complexa e cotidiana, marcada por contas no vermelho, cartões de crédito no limite e economias esgotadas em pouco tempo.

Uma pesquisa realizada com mais de 2 mil pessoas em 2024 pela plataforma de serviços financeiros LendingTree apontou que 24% dos visitantes da Disney contraíram dívidas para financiar a viagem. O índice sobe para 45% entre pais com filhos menores de 18 anos, de acordo com o levantamento.

A longa lista de gastos

A pesquisa da LendingTree também revelou um dado significativo: 29% das pessoas que visitam os parques temáticos da Disney são adultos. Desse total, 20% vão com familiares, enquanto 10% viajam com amigos.

Em termos de faixas etárias, os que mais frequentam esses locais são os jovens da "geração Z" e os chamados "baby boomers", ambos com 35%. Em seguida aparecem a "geração X", com 28%, e os "millennials", com 24%.

Somente o ingresso para um desses "reinos" do entretenimento pode custar entre US$ 100 e US$ 200. Assim, um pacote básico para duas pessoas, sem incluir alimentação, pode ultrapassar os US$ 3 mil na tarifa econômica e chegar a quase US$ 9 mil na opção de luxo, segundo o Disney Tourist Blog.

Os gastos aumentam com a alimentação, que apresenta preços elevados, segundo os visitantes. De acordo com a pesquisa da LendingTree, 65% dos que contraíram dívidas ao visitar um parque da Disney afirmam que comida e bebidas ultrapassaram o orçamento. Alguns pratos podem chegar a até US$ 60 por pessoa.

Outra despesa inesperada para o bolso dos chamados "adultos Disney" são os custos com transporte e hospedagem. Uma diária em um dos hotéis do conglomerado pode variar entre US$ 200 e US$ 1 mil por noite, caso não seja adquirido um pacote com antecedência.

Manipulação psicológica?

Além dos gastos elevados e do endividamento, há também o fator psicológico. Em um artigo, Carly Breslin, integrante da Psi Chi, aborda a relação que os visitantes estabelecem entre os parques temáticos e os finais felizes dos filmes da Disney, que estimulam a liberação de dopamina no cérebro.

A limpeza dos espaços, a climatização e o atendimento cordial também funcionam como estímulos para o consumo contínuo.

Outro elemento está ligado à sensação de nostalgia e inocência presente nos parques, o que leva as pessoas a percebê-los como locais de escape dos problemas do cotidiano.

"A verdadeira chave para que a Disney se torne o lugar mais feliz do mundo está em sua capacidade de influenciar nossos sentidos", afirma Carly Breslin.

Um exemplo disso é o caso de Ashley, estudante entrevistada pela The New Yorker, que afirma ter gasto suas economias de US$ 15 mil em dois anos com visitas a parques temáticos da Disney. A jovem reconhece que cada retorno representa uma forma de acumular dívidas, apesar de planejar detalhadamente cada viagem, mas não demonstra arrependimento.

Disney e a magia dos números

A percepção de que os preços são elevados não se limita aos visitantes. O diretor-executivo da Disney, Bob Iger, admitiu que a empresa foi "agressiva demais" ao definir o custo de acesso aos parques temáticos durante sua participação na Conferência de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Morgan Stanley, em março de 2023, segundo a KTLA.

"Sempre acreditei que a Disney era uma marca que precisava ser acessível e acho que, em nossa busca por aumentar os lucros, talvez tenhamos sido um pouco agressivos demais com alguns de nossos preços", confessou Bob Iger.

A própria existência do lucrativo negócio do conglomerado de entretenimento fundado por Walt Disney tem sido colocada em questão diante da incerteza provocada pela migração do público para opções não presenciais oferecidas por redes sociais, streaming e inteligência artificial, segundo o El Mañana.

Até o ano passado, a empresa eliminou 7 mil postos de trabalho, e a expectativa é de que, em 2026, outros mil funcionários sejam demitidos.

Essas demissões acenderam alertas entre os fãs dos parques temáticos sobre o futuro desses locais onde a magia e os cartões de crédito caminham lado a lado.