O que se esconde por trás da retirada das tropas de Trump da Alemanha

A ameaça marca uma escalada perigosa na ruptura transatlântica e coloca em dúvida o papel dos EUA como garantidor da segurança europeia.

A guerra no Irã torna cada vez mais evidentes as fissuras nas relações entre os Estados Unidos e seus aliados europeus. Em meio às duras críticas do chanceler alemão Friedrich Merz, Donald Trump ameaçou retirar do país europeu "muito mais do que 5.000" militares americanos.

A redução do contingente, por si só, não parece uma catástrofe. Mas o sinal político é muito mais grave: Washington demonstra sua disposição de rever os fundamentos de sua presença na Europa. E as consequências podem ir muito além do número de soldados.

O ponto de não retorno

Ao comentar os acontecimentos, o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, classificou a situação como um "ponto de não retorno" e alertou sobre as possíveis consequências graves.

"Isso é muito grave. Tudo está desmoronando a partir de uma única declaração, e esta é uma declaração política legítima que trata da relação entre as duas maiores potências ocidentais. O que Merz disse a Trump, e a resposta de Trump a ele... É evidente que os interesses já não coincidem e que chegamos a um ponto sem volta", declarou.

A escalada foi precedida por um conflito aberto entre Trump e Merz. Na semana passada, o chanceler alemão disse que as autoridades iranianas estão "humilhando" os EUA e demonstrando que são "evidentemente mais fortes do que se pensava". Além disso, indicou que se sentia "desiludido" com a abordagem adotada pelos EUA e por Israel contra o Irã e, em vez disso, defendeu a necessidade de a União Europeia trabalhar decididamente em prol de uma solução diplomática para o conflito. 

É especialmente revelador que, no início de março, Merz tenha de fato apoiado essa campanha militar. No entanto, diante da queda de sua popularidade e da crescente pressão econômica interna provocada pelas consequências da crise, ele se viu obrigado a mudar radicalmente seu discurso.

A reação de Trump a essas declarações não demorou. "Ele não sabe do que está falando! Se o Irã tivesse armas nucleares, o mundo inteiro estaria em perigo", disse o presidente americano.

Na última quinta-feira (30), o líder republicano continuou com suas críticas a Merz, instando-o a se concentrar nos problemas de seu "país devastado" e na resolução do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, diante do qual ele tem sido "totalmente ineficaz".

Não apenas os soldados

No entanto, uma possível retirada das tropas é apenas uma parte de um panorama mais amplo. Segundo informou o New York Times, a implantação de mísseis americanos de médio alcance na Alemanha também poderia estar ameaçada.

Esses planos foram acordados em 2024 pela administração de Joe Biden e pelo governo de Olaf Scholz, e eram considerados um elemento-chave da segurança europeia. Agora, porém, sua implementação está em dúvida.

O próprio Merz reconheceu que era improvável que mísseis Tomahawk fossem fornecidos a Berlim. "Os americanos não dispõem atualmente de mísseis suficientes para si próprios. Neste momento, é praticamente impossível que os Estados Unidos possam fornecer sistemas de armas deste tipo", declarou Carlo Masala ao Financial Times, professor de política internacional na Universidade da Bundeswehr, em Munique.

Golpe econômico

O especialista em política alemã Ivan Kuzmín declarou à RT que o plano de Trump também poderia causar prejuízos econômicos aos municípios alemães.

"A retirada de tal quantidade de tropas não passará totalmente despercebida. Embora seja improvável que essa medida afete a situação de segurança da Alemanha, as pequenas cidades onde as tropas americanas estavam alojadas sofrerão graves consequências econômicas, já que a economia dessas pequenas localidades dependia em grande parte dos contingentes americanos", declarou o analista.

"Nesse sentido, não é de se estranhar que já tenhamos ouvido a declaração do prefeito de Ramstein-Miesenbach, Ralf Hechler, que se referiu às consequências econômicas devastadoras’ para localidades como a cidade que ele administra", acrescentou.

"Com o reagrupamento familiar, o total de pessoas que partirão oscila entre 10.000 e 12.000. Para Ramstein, isso seria fatal", declarou o político alemão.

Segundo Kuzmín, a decisão de Trump acabará sendo para as autoridades alemãs "um novo impulso para aplicar com maior intensidade a política de remilitarização", embora tenha destacado que, para levá-la adiante, será necessária a aprovação do Congresso, o que não está garantido.