Conflitos no Golfo Pérsico exercem impacto mais imediato sobre os preços do petróleo do que qualquer rearranjo institucional no mercado global, avalia Cibele Vieira, coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), em entrevista à RT, nesta quinta-feira (30).
"No imediato, os preços estão sendo diretamente afetados pela guerra", afirma. Segundo ela, a recente saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da OPEP e da OPEP+ apontaria para um possível enfraquecimento do cartel. Contudo, "isso não aconteceu agora, porque a guerra está pressionando (os preços) para cima".
Mesmo assim, a saída dos Emirados da OPEP "decreta um novo desenho também no setor de produção de petróleo em nível mundial", argumenta.
O anúncio dos EAU, um dos maiores exportadores mundiais de hidrocarbonetos, representa um abalo relevante na arquitetura de coordenação que, há décadas, regula os preços e a oferta global de petróleo.
Criada sob argumento de estabilizar preços e garantir previsibilidade ao mercado, a OPEP perde, com a saída, parte de sua capacidade de disciplinar o regime de distribuição e precificação do petróleo.
Na prática, isso tende a abrir espaço para decisões mais autônomas dos grandes produtores. Além disso, aponta para um mercado potencialmente mais competitivo — um movimento que, em condições normais, pressionaria os preços para baixo.
Contudo, Vieira — que trabalha na Petrobras há mais de 20 anos —, argumenta que os efeitos do enfraquecimento da OPEP e da OPEP+ ainda estão em gestação.
"A gente fica com um cenário um pouco mais incerto sobre como se dará uma certa regulamentação no setor, que na prática era um pouco o que a OPEP fazia", explica.
Esse ambiente, argumenta a coordenadora-geral da FUP, reduz a previsibilidade e dificulta o planejamento de investimentos de longo prazo.
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Produção e inflação
Um dos impactos mais diretos para o Brasil, de acordo com Vieira, está na intensificação da concorrência internacional, especialmente em mercados asiáticos.
"Cada país acaba ficando mais livre para negociar diretamente com outros países. Então, isso pode aumentar, por exemplo, a concorrência no Brasil em fornecer para a China", disse.
O gigante asiático é hoje o principal destino do petróleo brasileiro, e uma atuação mais agressiva de produtores como os Emirados pode disputar espaço nesse eixo estratégico.
A possível ampliação da oferta global no médio prazo também pode provocar uma inflexão nos preços. "Pode levar a um aumento de oferta de petróleo no cenário mundial, o que levaria a uma queda de preço", diz Vieira.
Para o Brasil, esse movimento pode carregar efeitos distintos. "A queda de preço do barril acaba afetando a Petrobras no que tange exportação (...) ela também diminui a pressão por aumento dos derivados, o que pode ter reflexos positivos no mercado interno, especialmente sobre combustíveis e inflação", explicou.
Questão geopolítica
Para além dos efeitos econômicos, a dirigente da FUP enxerga na atual conjuntura uma mudança mais profunda na geopolítica global. "O que a gente está assistindo é uma redefinição do desenho mundial", afirma.
Ela cita o papel crescente dos Estados Unidos e de Israel, que iniciaram a guerra contra o Irã em fevereiro, na reorganização do Oriente Médio. Além disso, a resistência do Irã e o enfraquecimento de instâncias multilaterais são fatores que se entrelaçam com o mercado de energia.