Epstein construiu 'mesquita' própria e adquiriu objetos de local sagrado do islamismo

Suas conexões com a Arábia Saudita lhe renderam relíquias islâmicas de inestimável valor provenientes de Meca, incluindo três fragmentos do manto sagrado da Kaaba.

Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça detalham como Jeffrey Epstein utilizou seus contatos no Oriente Médio para adquirir artefatos islâmicos raros, incluindo tapeçarias da Kaaba, em Meca, o local mais sagrado do Islã, e azulejos do Uzbequistão, com o objetivo de decorar um edifício em sua ilha particular, segundo o New York Times em publicação na quarta-feira (29).

A ideia do falecido financista e predador sexual de criar um refúgio em uma ilha surgiu durante sua prisão em 2009, após se declarar culpado por solicitar serviços de prostituição. A ideia inicial de construir um "hammam" ou banho turco cercado por jardins islâmicos mudou posteriormente para a intenção de construir uma "sala de música" em sua propriedade, Five Palms, inspirada nas mesquitas do Oriente Médio.

Em 2011, ele procurou azulejos autênticos no Uzbequistão para decorar as paredes internas com um estilo semelhante ao de uma mesquita.

Embora existissem várias teorias sobre se tratava de um templo, um pavilhão ou uma sala de música, e não esteja claro se a intenção era que a construção fosse usada como mesquita, a correspondência entre Epstein e Ion Nicola, um artista romeno contratado para o projeto, revelou que Epstein se referia ao edifício como tal.

A assistente do assessor da corte saudita conseguiu para ele relíquias islâmicas de inestimável valor provenientes de Meca para sua ilha particular, incluindo três fragmentos da cobertura sagrada da Kaaba, para decorar sua suposta "mesquita".

Segundo o NYT, o financista era fascinado pelo design islâmico e, em 2013, entrou em contato com Nicola para que ele buscasse esboços semelhantes ao Yalbugah Hammam, um banho sírio do século XV caracterizado por sua cúpula dourada e fachada com faixas.

Em suas instruções, ele pediu para substituir a palavra árabe para "Deus" por suas próprias iniciais, sugerindo trocar "Alá" por um "J" e um "E".

O Oriente Médio teve um papel especial


Em 2010, conheceu o diplomata norueguês Terje Rod-Larsen. Por meio dessa amizade, conseguiu alcançar um de seus objetivos , que consistia em tornar-se o consultor financeiro do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para a abertura de capital da petrolífera Aramco.

Graças à mediação de Rod-Larsen, Epstein entrou em contato com o assessor da corte saudita e sua assistente, Aziza Al Ahmadi, o que lhe permitiu desenvolver uma intensa campanha para conquistar a simpatia do príncipe, apresentando-lhe ideias incomuns, como a criação de uma moeda exclusiva para muçulmanos.

Sua insistência deu frutos quando conseguiu um convite oficial para a Arábia Saudita a fim de se reunir pessoalmente com o príncipe herdeiro.

Apesar de, após os danos causados à ilha pelo furacão Maria em 2017, a relação com Riade também ter naufragado — já que Mohammed bin Salman, então já príncipe, ignorou a consultoria financeira de Epstein —, a estreita relação com Al Ahmadi já lhe havia trazido benefícios.

No entanto, a ruína de Epstein veio logo em seguida, quando uma investigação revelou seu obscuro acordo judicial de 2008, o que resultou em sua prisão em julho de 2019 por novas acusações e sua morte na prisão um mês depois.