Os Emirados Árabes Unidos, terceiro maior produtor de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), anunciaram sua saída da organização, que há décadas desempenha um papel fundamental na regulação dos preços mundiais do petróleo.
"Esta decisão está em consonância com a visão estratégica e econômica de longo prazo dos Emirados Árabes Unidos e com o desenvolvimento de seu setor energético, o que inclui acelerar o investimento na produção local de energia, e reafirma seu compromisso com seu papel como produtor responsável e confiável que antecipa o futuro dos mercados mundiais de energia", afirma um comunicado da agência estatal WAM.
Em Abu Dhabi, também foi destacado que a saída foi resultado de uma análise minuciosa das capacidades de produção atuais e futuras, bem como dos interesses nacionais do país.
No entanto, essa medida tem um contexto não apenas econômico, mas também político. Ela reflete as crescentes divergências dentro do bloco petrolífero, sobretudo entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita.
Aposta no volume
Os Emirados Árabes Unidos fizeram parte da OPEP por quase 60 anos, e a estratégia do cartel — limitar a produção para manter os preços — satisfez todos os membros por muito tempo. Mas a situação mudou.
"Os Emirados Árabes Unidos já não se encaixam no modelo. Eles investiram fortemente para ampliar a capacidade, enquanto as cotas da OPEP+ limitaram sua capacidade de monetizar esses barris. A Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dabi estabeleceu como meta uma capacidade de produção de petróleo bruto de 5 milhões de barris por dia até 2027, enquanto a produção dos Emirados Árabes Unidos tem sido frequentemente restringida pelos acordos da OPEP+. Abu Dabi quer transformar o petróleo do subsolo em riqueza soberana enquanto a demanda ainda tem valor. O cartel quer paciência. Os Emirados Árabes Unidos querem rapidez", opina James Thorne, estrategista-chefe de mercado da agência de investimentos Wellington-Altus (Canadá).
"Essa é a mudança estrutural. O mercado de petróleo está passando da defesa dos preços para a conquista de participação de mercado. Os Emirados Árabes Unidos não estão deixando a OPEP porque perderam a fé no petróleo. Estão saindo porque querem vender mais enquanto o mundo ainda precisa dele", acrescentou.
Uma vitória para Trump?
Ao analisar a notícia, a Reuters informou que a saída de Abu Dhabi da organização representa uma vitória para Donald Trump, conhecido por sua postura crítica em relação à OPEP e que a acusou de "enganar o resto do mundo" ao inflar os preços do petróleo.
No entanto, apesar da decisão, é improvável que a medida tenha um impacto significativo na formação dos preços dos recursos energéticos.
Como observou o analista de mercados petrolíferos Artiom Jarin em conversa com a RT, Abu Dhabi, mesmo antes do conflito entre os Estados Unidos e o Irã, extraía menos petróleo do que permitia a cota da OPEP. O especialista admite que os membros da organização poderiam redistribuir as cotas, mas enquanto durar o conflito com o Irã, isso não acontecerá.
Um pano de fundo político oculto
Uma das principais razões para essa decisão é o esfriamento das relações entre Abu Dhabi e Riad. A competição entre os dois países está se intensificando não apenas no âmbito econômico, mas também no político, conforme declarou à RT Murad Sadygzade, presidente do Centro de Estudos do Oriente Médio de Moscou.
"Nesse contexto, vale destacar a guerra no Sudão, a situação no Iêmen, o agravamento da situação e a rivalidade na Líbia, bem como a estreita colaboração dos Emirados Árabes Unidos com o Estado de Israel. Tudo isso agrava a situação geral", aponta o analista, ressaltando que a saída da OPEP visa, em primeiro lugar, reduzir a interação com Riad.
Bomba-relógio
Artiom Jarin considera que, a longo prazo, a saída dos Emirados Árabes Unidos representa uma "mina de ação retardada" para o bloco petrolífero, já que o enfraquecimento da OPEP reduz sua capacidade de coordenar as ações dos produtores e amenizar as flutuações dos preços.
Segundo o analista, foi justamente a OPEP que desempenhou um papel positivo na hora de amenizar as diferenças entre os produtores de petróleo, por exemplo, durante o conflito de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita em 2020, quando o preço dos futuros chegou a níveis negativos.
"A guerra de preços foi resolvida porque, no final, a OPEP conseguiu, de alguma forma, apaziguar ambos (Rússia e Arábia Saudita). Agora, o poder dessa instituição será menor e essas guerras de preços surgirão constantemente. E serão resolvidas com menos sucesso", aponta o especialista.
Sadygzade compartilha dessa opinião e considera que essa medida é prejudicial à reputação da OPEP. "Nesse contexto, poderia ocorrer justamente uma queda significativa no preço do petróleo. Porque quando algo assim ocorre, por assim dizer, no maior cartel energético do mundo, isso denota instabilidade nos mercados energéticos mundiais. E, desse ponto de vista, as ações dos Emirados Árabes Unidos podem ajudar, em certa medida, os Estados Unidos e a Europa a reduzir o custo dos recursos energéticos", indica.
No entanto, segundo o analista, o efeito disso será apenas de curto prazo e, se a tensão continuar, as monarquias do Golfo Pérsico continuarão enfrentando dificuldades com as exportações, o que gerará um déficit de petróleo no mundo.