
CIA no México: presença de agentes estrangeiros em operação antidrogas causa embate diplomático

A presença de agentes da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) em uma operação antidrogas no estado mexicano de Chihuahua provocou tensão diplomática entre México e Estados Unidos. O governo mexicano afirma que não foi informado previamente sobre a atuação dos agentes estrangeiros, fato que chamou a atenção de especialistas sobre soberania e legalidade.

O caso veio à tona em 19 de abril após a revelação de que dois agentes norte-americanos morreram em um acidente depois de participarem do desmantelamento de um laboratório de drogas no norte do país.
Segundo o governo mexicano, agentes estrangeiros não podem realizar operações de campo em território nacional sem autorização oficial. A participação direta da CIA, portanto, não integra os acordos de cooperação em segurança existentes entre os dois países.
A Secretaria de Relações Exteriores enviou uma carta de "estranhamento" à embaixada dos Estados Unidos no México solicitando esclarecimentos sobre quem eram os agentes, qual era sua função e quando ingressaram no país.
A presidente Claudia Sheinbaum afirmou que o México mantém cooperação constante com Washington, mas destacou que a atuação ocorreu fora dos protocolos acordados.
"Não fomos informados da participação dessas pessoas, não aceitamos participação em campo em operações (...) é uma questão de segurança nacional e soberania", declarou em coletiva.
Soberania
Especialistas em segurança ouvidos pela imprensa mexicana afirmam que a presença da CIA viola leis e regulamentos nacionais relacionados à atuação de agentes estrangeiros. Segundo analistas, a legislação mexicana prevê regras específicas para evitar ingerência externa em assuntos de segurança.
O diretor do Instituto Latinoamericano de Estudos Estratégicos, Víctor Hernández, afirmou ao jornal El Nacional que é necessário identificar qual autoridade permitiu a entrada dos agentes e advertiu que o episódio pode representar um conflito federativo interno. Ele também afirmou que operações desse tipo seguem um padrão de atuação internacional de serviços de inteligência dos Estados Unidos, frequentemente apresentadas como ações de "treinamento" ou "consultoria".
Outros especialistas apontaram que não é a primeira vez que agentes norte-americanos entram no país de forma encoberta para ações ligadas ao combate ao narcotráfico.
Pressão dos EUA
Uma reportagem do jornal The Washington Post publicada em 21 de abril associou o episódio a uma possível pressão do governo de Donald Trump para que o México intensifique ações contra cartéis de drogas, enquanto a CIA amplia operações na América Latina.
Sheinbaum rejeitou essa interpretação e afirmou que há comunicação permanente entre os governos e cooperação baseada na troca de informações e na extradição de narcotraficantes.
Em meio à controvérsia, a presidente mexicana anunciou nesta quinta-feira (23) a indicação do economista Roberto Lazzeri como novo embaixador do México nos Estados Unidos, substituindo Esteban Moctezuma. O nome ainda precisa seguir o processo diplomático e obter aceitação do governo norte-americano.
Segundo Sheinbaum, a agenda bilateral permanece centrada principalmente na relação comercial, além da cooperação histórica entre os países e da atenção aos cidadãos mexicanos que vivem nos Estados Unidos.


