
Do gesto ao caos: o que dizem especialistas sobre envolvimento dos houthis na guerra regional

Com o estreito de Ormuz praticamente fechado pelo Irã em resposta à agressão israelense-americana contra o país, a atenção de Washington e dos países do Golfo está se voltando cada vez mais para o Iêmen. Neste sábado (28), os rebeldes iemenitas houthis anunciaram seu primeiro lançamento de míssil balístico contra Israel, prometendo continuar sua ofensiva até que cesse "a agressão contra todas as frentes de resistência".

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Analistas e fontes diplomáticas concordam que a entrada dos houthis no conflito poderia replicar no estreito de Bab el-Mandeb, outro ponto estratégico que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden, o mesmo efeito de estrangulamento que o Irã já alcançou no Golfo Pérsico.

Diplomatas e analistas consultados pelo jornal britânico Reuters acreditam que os houthis estavam aguardando "um momento oportuno" para entrar na guerra em coordenação com o Irã, com o objetivo de exercer a máxima pressão. A combinação do estreito de Ormuz fechado e da crescente dependência do Mar Vermelho poderia representar tal oportunidade.
Os riscos para o próprio movimento são elevados, contudo. O envolvimento do Hezbollah na guerra levou a intensos bombardeios israelenses e à expansão das operações terrestres, que deslocaram civis do sul do Líbano; no Iraque, os ataques dos EUA contra milícias apoiadas pelo Irã transformaram o país novamente em um campo de batalha. Os houthis já sofreram ataques dos EUA no ano passado, que destruíram infraestrutura militar e mataram vários comandantes.

Precedentes
Os houthis já paralisaram o tráfego no Mar Vermelho por grande parte de dois anos após o acirramento dos ataques de Israel à Gaza em outubro de 2023, forçando muitas empresas de navegação a evitar o Canal de Suez e a desviar suas rotas ao redor do Cabo da Boa Esperança. Nesta sexta-feira (27), o grupo intensificou sua retórica, afirmando que "está pronto para uma intervenção militar direta".
Adam Baron, especialista em Iêmen e no Golfo, avaliou à agência americana de imprensa The Wall Street Journal (WSJ) que uma possível entrada dos houthis na guerra "realmente aumenta a tensão", pois "envolve o Canal de Suez e os egípcios, e implica ainda mais a Arábia Saudita".
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O movimento, antes visto como uma milícia montanhesa mal armada, demonstrou na última década sua capacidade de tomar a capital iemenita, Sana'a, e outros importantes centros populacionais, bem como de resistir a uma coalizão árabe liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos.
Durante as agressões de Israel em Gaza, os houthis lançaram mais de 100 ataques contra navios — incluindo petroleiros — no Mar Vermelho e dispararam mísseis e drones contra Israel. Apesar do cessar-fogo direto com os EUA, o grupo continuou a atacar Israel e navios até a assinatura do acordo de paz entre Israel e o grupo palestino Hamas no outubro de 2025. O tráfego no Mar Vermelho se recuperou desde então, mas permanece abaixo dos níveis anteriores a 7 de outubro de 2023.

Repetir a operação em 2026 teria um impacto ainda maior e acarretaria mais riscos, contudo. O bloqueio do estreito de Ormuz e o desvio de parte das exportações de petróleo bruto da Arábia Saudita para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, a rota alternativa inevitavelmente passaria pela costa controlada pelos houthis e pelo estreito de Bab el-Mandeb.
Prospectos
Uma análise recente do think tank norte-americano Atlantic Council descreve três possíveis cenários para a intervenção dos houthis na guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, cada um com diferentes níveis de risco, tanto para o movimento iemenita quanto para a estabilidade regional.
- Retomar os ataques contra Israel: baixo risco, alto impacto simbólico.
O cenário considerado de menor risco imediato para os houthis envolveria a retomada de seus ataques com mísseis e drones contra Israel. Durante a guerra em Gaza, o grupo demonstrou sua capacidade de penetrar o espaço aéreo israelense, causando dezenas de vítimas e danos, incluindo ataques ao Aeroporto Ben Gurion. Um retorno a esse padrão previsivelmente desencadearia novos bombardeios israelenses no Iêmen.
Surveillance camera footage shows the moment of the Houthi missile impact at Ben Gurion Airport.The missile struck a grove adjacent to an access road, within the airport's perimeter. pic.twitter.com/AUyQwKrEOy
— Emanuel (Mannie) Fabian (@manniefabian) May 4, 2025
- Novos ataques à navegação no Mar Vermelho: poder de barganha econômico, risco com a Arábia Saudita.
Essa opção colocaria em risco a atual tensão com a Arábia Saudita. Da sua posição ao longo do estreito de Bab el-Mandeb, um ponto de estrangulamento marítimo crucial, é muito mais fácil para os houthis interromper o tráfego do que chegar a Israel.
A passagem é conhecida como o "Portão das Lamentações" em árabe, notoriamente um dos principais gargalos do comércio marítimo global, com apenas 29 quilômetros de largura, ligando o Mar Vermelho ao Golfo de Aden. Ela está localizada entre o Iêmen, na Península Arábica, e o Djibuti e a Eritreia, no Chifre da África, conferindo uma vantagem fisiográfica fundamental aos rebeldes iemenitas, que têm acesso territorial indisputado ao estreito no lado da península.
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As exportações de gás e derivados de petróleo dos países do Golfo Pérsico para a Europa e a Ásia passam por essa hidrovia, assim como os navios porta-contêineres que transportam eletrônicos e veículos da Índia, China e países do Sul da Ásia. O volume computa cerca de 20 mil navios anualmente e 8,8 milhões de barris de petróleo por dia, de acordo com análise do jornal indiano The Economic Times; cerca de 10 a 12% do comércio marítimo global depende dessa rota.

Por essa razão, a Arábia Saudita provavelmente sinaliza ao movimento houthi que ataques contra a navegação no Mar Vermelho agora representam uma linha vermelha, que pode provocar uma resposta militar à altura.
Reabrir a frente contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos: caminho para uma nova guerra no Iêmen.
O terceiro e mais perigoso cenário envolveria a retomada de ataques com mísseis e drones contra a Arábia Saudita e/ou os Emirados Árabes Unidos. Tais operações poderiam ser combinadas com uma campanha no Mar Vermelho e ofensivas terrestres dentro do Iêmen para tomar o controle dos recursos de petróleo e gás do governo internacionalmente reconhecido.

Na prática, isso significaria reacender a guerra no Iêmen. Se os governos saudita ou emiradense respondessem militarmente aos ataques iranianos contra sua infraestrutura civil e econômica, os houthis poderiam usar essa resposta para acusar as monarquias do Golfo de violarem o cessar-fogo alcançado em 2022. Nesse caso, sua principal motivação não seria a guerra com o Irã em si, mas sim a dinâmica interna iemenita,reforçando seu controle territorial e econômico.
Segundo um funcionário americano citado pela reportagem, a Arábia Saudita estaria trabalhando diplomaticamente para manter o grupo fora do conflito, e tanto os EUA quanto Israel tentavam evitar provocações que pudessem atrair o movimento.




