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Do avião de Epstein aos salões de Trump: Brasileira expõe relacionamento com enviado da Casa Branca

À imprensa brasileira, Amanda Ungaro descreve violência e tráfico de influência em seu relacionamento com Paolo Zampolli, enviado especial da Presidência dos EUA para parcerias globais.
Do avião de Epstein aos salões de Trump: Brasileira expõe relacionamento com enviado da Casa BrancaRedes sociais / Paolo Zampolli

Atravessando uma disputa judicial pela guarda de seu filho adolescente, a ex-modelo brasileira Amanda Ungaro ofereceu relato de seu relacionamento com o empresário italiano Paolo Zampolli, ao jornal O Globo. A entrevista foi publicada nesta quinta-feira (26).

A relação de 19 anos, antecedida por um voo com Jeffrey Epstein e atravessada pelos círculos internos do governo Donald Trump, é descrita por Amanda entre relatos de abuso sexual, violência doméstica e acusações de uso do Serviço de Imigração dos EUA (ICE) para deportá-la.

A bordo do Lolita

A ex-modelo transitava em altos escalões da política americana, afirmando a O Globo que, no início de sua carreira, em junho de 2002, embarcou no avião particular de Jeffrey Epstein, quando tinha apenas 17 anos, durante uma viagem entre Paris e Nova York.

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Acompanhada de seu agente francês Jean-Luc Brunel na aeronave, conhecida como "Lolita Express", Amanda teria visto dezenas de meninas, aparentemente entre 14 e 16 anos, que pareciam estudantes e interagiam intimamente com Epstein, sentando-se em seu colo e conversando com familiaridade.

Brunel, profundamente envolvido nas acusações de tráfico sexual, teria lhe apresentado Epstein e sua companheira e comparsa Ghislaine Maxwell, que atualmente cumpre 20 anos de prisão por tráfico sexual. A brasileira observou quando o casal se dirigiu aos fundos da aeronave acompanhados de algumas meninas, não reaparecendo até o término da viagem.

Amanda relatou que o ápice de seu desconforto se manifestou quando Brunel insistiu repetidamente para que ela guardasse em sua bolsa um pequeno pacote, que ela suspeitava conter drogas, recusando até que o agente desistisse do pedido.

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Ela teria conhecido o pai de seu filho, Paolo Zampolli, pouco tempo depois, ainda em 2002. Ele, que era dono da agência de modelos ID Models, é citado diversas vezes nos arquivos de Epstein, incluindo relatos de sua tentativa conjunta com o falecido criminoso sexual de comprar a agência francesa de modelos Elite Models — a oferta da dupla foi superada pela oferta do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que comprou a agência em estado de falência em 2004, no mesmo período em que era o proprietário da organização Miss Universo.

Atualmente, Zampolli ocupa a posição de enviado especial para parcerias globais da Presidência no segundo mandato de Trump, desde março de 2025.

Relação com Donald Trump

Amanda também afirma que a dinâmica do relacionamento mudou após a eleição de Trump para seu primeiro mandato, em 2016, período em que o casal passou a frequentar eventos oficiais nos Estados Unidos. "Paolo achou que ele também tinha sido eleito presidente", relatou a ex-modelo. "Ele se transformou completamente, e isso acabou piorando ainda mais o nosso relacionamento que já estava em crise."

Zampolli teria conhecido Donald Trump nos anos 1990, e foi responsável pelo visto de trabalho da atual primeira-dama dos EUA, Melania Trump, quando atuava como agente de modelos. Ela afirma que a relação de seu ex-companheiro era especialmente próxima de Melania, que era a efetiva autora de convites a Amanda e Zampolli não apenas para eventos partidários, mas também do círculo íntimo de Trump, frequentando jantares e mesmo a residência de Mar-a-Lago.

Segundo ela, a separação do casal ganhou repercussão em 2018, quando houve disputa sobre o status legal da união e possíveis direitos financeiros, culminando em uma temporária reconciliação em nome do filho do casal e, supostamente, por conselho do próprio presidente americano.

Abusos domésticos

Amanda relata que episódios de violência ocorreram ao longo da relação. Em um dos casos, afirma ter sido abusada após uma festa, sem ter consciência do ocorrido.

"Eu falei: Isso se chama estupro. Eu fui abusada. Ele reagiu com uma risada", disse Amanda.

Ela afirma que os conflitos se intensificaram após o nascimento do filho, quando passou a questionar o estilo de vida do casal, marcado por festas frequentes e rotina noturna. Amanda afirma que, no curso de seu relacionamento, Zampolli teria levado a brasileira para as atualmente infames festas do rapper Sean Combs, conhecido como P. Diddycondenado desde outubro de 2025 a quatro anos e dois meses de prisão por traficar pessoas para fins de prostituição.

"Quando eu estava grávida, pedi muito para ele diminuir o ritmo de festas, isso de sair todos os dias, e ele sempre ignorou. Quando o Giovanni nasceu, ele estava na Provocateur (clube nova-iorquino), festejando com os amigos dele e eu no hospital tendo meu filho", afirmou.

Em outro relato, Amanda descreve agressões após recusar relações sexuais. "Estava me arrumando quando ele veio para cima de mim e me deixou toda marcada. Foi assim que procurei um advogado e começou o processo na Suprema Corte, em 2018, para eu poder me separar", disse a ex-modelo.

Apesar de se reconciliarem após o início do processo, o relacionamento terminou definitivamente em 2021, após notícia de uma traição por parte de Zampolli.

Tráfico de influência

Desde então, Amanda afirma que retomou a disputa judicial pela guarda do filho e acusa o ex-companheiro de usar influência política para prejudicá-la, incluindo sua deportação para o Brasil em 2025.

As acusações são apoiadas por informações da imprensa americana, que confirmaram que Zampolli procurou autoridades da imigração em junho do ano passado, solicitando que Amanda fosse detida pelo Serviço de Imigração (ICE).

Amanda relata que agentes invadiram sua residência às seis da manhã, algemando-a ainda de pijama junto ao atual marido, o médico brasileiro João Batista Cunha Araújo, na presença do filho menor. Seu status migratório era registrado como "em transição", diante da extensão dos direitos da autorização de trabalho e residência (green card) de seu marido.

Ela teria permanecido em um centro de detenção até setembro, quando solicitou à Justiça americana que lhe garantisse o retorno ao Brasil. Seu filho teria decidido viver com a mãe no país em novembro, com autorização judicial, tendo supostamente mudado de ideia no mês seguinte e retornado aos EUA.

Enquanto Zampolli alega que o menor retornou sozinho, sob clamores de "amar a América", Amanda teria registrado uma ocorrência de sequestro no Brasil, alegando que o ex-companheiro retirou o filho ilegalmente de sua guarda. Mensagens obtidas pelo Globo demonstraram, ainda, que o empresário mobilizou procuradores para supervisionar um posterior depoimento de seu filho à Justiça americana, fazendo referências a Pam Bondi, procuradora-geral dos EUA.

Procurado pelo jornal, Zampolli classificou as acusações como "absurdas" e disse desejar "o melhor" para a ex-companheira.