
Pesquisa detecta substâncias tóxicas em 100% dos fones de ouvido analisados

Um estudo europeu divulgado nesta quinta-feira (26) pela organização ambiental checa Arnika concluiu que todos os modelos de fones de ouvido avaliados, independentemente da faixa de preço, contêm substâncias químicas, potencialmente tóxicas, associadas a alterações no sistema hormonal.

A pesquisa examinou 81 modelos comercializados na Europa, analisando 180 amostras de componentes plásticos, tanto rígidos quanto flexíveis.
O levantamento apontou que todos os dispositivos continham bisfenóis, compostos amplamente utilizados na indústria e conhecidos por sua ação como desreguladores endócrinos.
Entre eles, o bisfenol A (BPA), já alvo de restrições severas em diversos países, foi identificado em 98% das amostras. Seu substituto mais comum, o bisfenol S (BPS), apareceu em mais de três quartos dos itens testados. O estudo foi financiado pela União Europeia e conduzido em cinco países da Europa Central.
Do premium ao econômico
A análise incluiu produtos de grandes fabricantes globais, como Apple, Sony, Samsung e Panasonic, além de marcas voltadas ao público infantil e ao segmento gamer, como Razer, Logitech e HyperX. Também foram avaliados modelos de baixo custo vendidos em plataformas online.
A conclusão é desconfortável para o consumidor: pagar mais caro não significa, necessariamente, adquirir um produto mais seguro. As substâncias foram encontradas em todo o espectro do mercado.
Karolína Brabcová, especialista em substâncias químicas da Arnika, afirma que o problema vai além da simples presença dos compostos no plástico. "Essas substâncias não são apenas aditivos inertes. Elas podem migrar dos fones diretamente para o nosso corpo", explicou.
Fatores como calor corporal e suor, comuns durante exercícios físicos, podem acelerar essa transferência pela pele. Embora não representem um risco imediato, a exposição contínua preocupa, especialmente entre adolescentes. “No caso dos desreguladores endócrinos, não existe um nível verdadeiramente seguro”, alertou.
Falhas na regulação
O estudo também chama atenção para uma prática recorrente na indústria química: a substituição de compostos proibidos por versões levemente modificadas da mesma molécula. Essas variações escapam temporariamente das listas de restrição, mas mantêm estrutura e efeitos tóxicos semelhantes.
Para os pesquisadores, os resultados indicam uma falha sistêmica na fiscalização da segurança química no setor eletrônico.
Emese Gulyás, especialista em consumo sustentável da Associação Húngara de Consumidores Conscientes, defende uma mudança de abordagem: "A legislação atual é lenta e ultrapassada. Precisamos de regras europeias harmonizadas que proíbam classes inteiras de substâncias perigosas, não apenas moléculas específicas", defendeu.
Além da proteção à saúde, o debate também envolve sustentabilidade. A presença de compostos tóxicos em plásticos dificulta a reciclagem segura e perpetua a circulação de materiais contaminados na cadeia produtiva.

