O escândalo envolvendo a atuação da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) no Paraguai deverá pautar um dos momentos mais sensíveis da cúpula do Mercosul, que será realizada nesta quarta e quinta-feira (2 e 3 de julho), em Buenos Aires. Pela primeira vez desde a revelação do caso, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, deverá se encontrar presencialmente com o presidente paraguaio, Santiago Peña.
A suposta operação de espionagem — que teria sido iniciada durante o governo de Jair Bolsonaro e mantida no início do terceiro mandato de Lula — gerou forte tensão nas relações diplomáticas entre Brasília e Assunção.
Segundo avaliação da imprensa regional, "Peña não quis aumentar publicamente o conflito e espera que, no âmbito de uma reunião bilateral com Lula – ainda não anunciada oficialmente –, ele possa pelo menos obter explicações ou algum sinal de colaboração".
Entretanto, o clima de desconfiança causado pela suposta operação de espionagem ainda paira sobre as relações de ambos os países. O governo paraguaio tem evitado compromissos públicos com Brasília até que o episódio seja devidamente esclarecido.
Relembre:
Imprensa denuncia que ABIN atua no Paraguai desde o governo Bolsonaro
No final de março, a imprensa brasileira revelou um suposto esquema de espionagem da Abin contra sistemas de autoridades paraguaias. Ele teria se iniciado durante o governo Bolsonaro, e se estendido durante o governo Lula, com autorização do diretor Luiz Fernando Corrêa.
Depoimentos à PF apontam que a operação utilizou um software de invasão e coletou dados de autoridades do país vizinho, com objetivo de acessar informações sigilosas sobre tarifas da usina de Itaipu.
Lula nega qualquer participação
O Itamaraty afirmou que operação da Abin foi autorizada no governo Bolsonaro e suspensa durante o mandato do petista.
Segundo pronunciamento oficial da instituição, "a operação foi autorizada pelo governo anterior, em junho de 2022, e tornada sem efeito pelo diretor interino da Abin em 27 de março de 2023, tão logo a atual gestão tomou conhecimento do fato".
Paraguai reage de forma oficial
O governo do Paraguai exigiu explicações formais, tensionando as relações entre os dois países. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro adota tom cauteloso, prometendo cooperação e esclarecimento dos fatos.
Nesse contexto, o governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro para esclarecimentos e promete uma investigação internacional.
Na ocasião, Assunção decide suspender unilateralmente o Anexo C do Tratado de Itaipu, que trata das condições financeiras e de comercialização da energia produzida pela Usina de Itaipu Binacional, dividida entre Brasil e Paraguai.
Lula pede por esclarecimentos das autoridades
Em abril deste ano, foi realizada uma reunião para discutir uma operação de espionagem contra o Paraguai com membros da ABIN e da Polícia Federal.
O encontro ficou marcado pela tensão e por ânimos acalorados, segundo informações divulgadas pela Folha de São Paulo.
Penã promete defender soberania
Também em abril, Peña acusou o Brasil de ter violado o direito à soberania do Paraguai. O presidente disse que as iniciativas da ABIN "reabrem antigas feridas" - em referência direta à guerra travada entre os dois países, entre 1864 e 1870, que também contou com a presença de Argentina e Uruguai ao lado do Brasil.