Os esquecidos do deserto — RT Reporta

Na periferia desértica de Lima, famílias humildes buscam um lar subindo morros, onde acabam nas mãos de traficantes de terras. Vivem precariamente em barracos improvisados, enfrentando calor escaldante e a ameaça constante de despejos violentos. A água chega uma vez por semana, enquanto a burocracia paralisa a construção de reservatórios. Sem serviços básicos ou presença do Estado, doenças e conflitos se espalham entre as dunas. Moradores se organizam e esperam, com esperança em meio à poeira.

O Peru é uma nação de contrastes abruptos. Em suas costas, desertos infinitos coexistem com bairros que escalam morros em busca de um espaço próprio. Nesses ambientes de aridez, a sobrevivência é o objetivo primordial, enquanto a burocracia e o acesso limitado a serviços básicos marcam a vida daqueles que habitam as margens da sociedade.

O calvário pela habitação e o tráfico de terras

Nos arredores de Lima, a Associação de Habitação "Amor al Prójimo" reflete uma crise estrutural. Após 11 anos de posse, seus habitantes lutam para legalizar seu status para ter acesso a eletricidade e água potável, um caminho que descrevem como um "calvário" de labirintos legais.

Bélgica Nieves, dirigente da associação, denuncia não apenas o abandono estatal, mas também a violência. Ela relata ter sido vítima de enganações de supostos proprietários e de agressões que incluem incêndios em residências e disparos. Por sua vez, Jonen Ureta, da UC Inversiones SAC, sustenta que a associação é uma formação paralela que busca usurpar terrenos que sua empresa já possui formalizados.

Este conflito evidencia o crescente tráfico de terras no Peru. O ministro da Habitação, Wilder Sifuentes, alerta que esta modalidade é uma "organização criminosa" que envolve usurpação, extorsão e sicariato (contratação de assassinos), complicando a gestão de propriedades estatais.

A luta pela água

Em zonas como o Cerro Zorritos, a escassez é constante. A água chega apenas uma vez por semana por meio de caminhões-pipa, obrigando os moradores a reciclar cada gota. Claudia Esperanza, moradora da região, explica a precariedade: "Temos apenas uma torneira para lavar ou satisfazer necessidades básicas... temos que esperar a água esfriar para nos higienizarmos". Embora existam projetos de reservatórios em andamento, a burocracia e os estudos técnicos podem atrasar sua chegada por mais alguns anos.

O oásis de Huacachina: Turismo e sustentabilidade

Em contraste, o oásis de Huacachina representa o potencial turístico do deserto. No entanto, María Elena Cabrera, da Associação de Empresários de Huacachina, alerta sobre a falta de uma governança que garanta a sustentabilidade. O turismo de massa tem gerado poluição sonora, luminosa e ambiental que afeta a fauna, devido a uma gestão administrativa fragmentada entre a prefeitura e o governo regional.

Apesar desses desafios, o deserto também é cenário de adrenalina. O sandboarding, liderado por profissionais como Dito Chávez, atrai visitantes que buscam explorar as dunas da América Latina, demonstrando que o deserto é, ao mesmo tempo, um desafio de sobrevivência e um espaço de paixão e aventura.