Castanha-do-Pará: preservação ou cobiça? - RT Reporta

Com o boom da castanha-do-pará nos mercados internacionais, uma batalha silenciosa se trava no coração da Amazônia, onde a imagem de um superalimento sustentável colide com a realidade dura da exploração e do desmatamento. Diante da desigualdade que permeia seu comércio, emerge uma pergunta inevitável: será que esse "ouro espinhoso" tem o poder de salvar a floresta e as comunidades tradicionais que dela dependem, ou sua riqueza continuará alimentando apenas uns poucos?

O Brasil detém a maior porção da floresta amazônica, berço da castanha-do-pará — fruto de árvores centenárias reconhecido mundialmente como superalimento. Contudo, a riqueza natural da floresta esconde uma cadeia produtiva marcada pela desigualdade na distribuição de lucros ao longo da cadeia produtiva, privilegiando exportadores em detrimento dos coletores tradicionais.

A produção nacional alcança aproximadamente 34 mil toneladas anuais, com o Pará respondendo por um quarto desse volume. Na cidade de Oriximiná, existem pelo menos três grandes exportadores. Apesar de competirem no mesmo mercado, os empresários afirmam manter uma relação cordial, com um acordo tácito de não discutir preços durante a época da colheita.

Os empresários, entretanto, apontam os pequenos empreendedores como a maior ameaça aos seus negócios, já que compram quantidades menores de castanha-do-pará e as processam diretamente. 

Papel dos сolhedores e сadeia de valor

A colheita da castanha-do-pará está nas mãos dos "castanheiros", habitantes de comunidades amazônicas com profundo conhecimento do território. Contudo, os colhedores, que vivem em condições humildes, muitas vezes começam a colheita endividados, pois os empresários lhes fornecem os materiais necessários para o trabalho.

Esse sistema cria uma diferença marcante entre o preço recebido pelos coletores, em torno de R$ 150 por 50 quilos, intermediários revendem a mesma quantidade por R$ 380. No mercado internacional, esse valor quintuplica, concentrando os maiores ganhos no elo final da cadeia.

Quais são alternativas?

Diante dessa desigualdade, surgiu uma alternativa: a Coopaflora, uma cooperativa de comunidades indígenas e afrodescendentes da região do Rio Trombetas. Com pouco mais de 100 famílias associadas, elas produzem cerca de quatro toneladas de castanha-do-pará por safra e começaram a agregar valor aos seus produtos, fabricando óleos e outros derivados.

A Coopaflora criou um fundo comum para investir em infraestrutura e transporte e distribui os lucros de forma equitativa entre seus membros. Seu objetivo é romper com a dinâmica desigual entre exportadores, intermediários e colhedores.

Com o aumento da demanda por castanha-do-pará como superalimento, há preocupações de que grandes corporações promovam plantações em larga escala, o que poderia resultar em desmatamento e desequilíbrio ecológico.