
O caso Epstein, a ilha prometida

Uma das principais características do caso Epstein é que, na realidade, não se trata de nenhuma grande notícia, embora a mídia a apresente como tal. É uma "inconveniência conveniente" e um escândalo que não escandaliza ninguém, visto que seus mais de três milhões de arquivos de horror nada mais são do que um diário de bordo do poder neoliberal, despojado de qualquer noção do humano.
A ilha de Epstein é uma pequena parcela do arquipélago que abrange os cinco continentes e não é apenas um lugar geográfico, mas uma construção mental do poder que nos oferece sua própria projeção de futuro. É o plano deles.

É curioso que os supostos inimigos do atual governo estadunidense, os democratas, já tenham mentido tanto que, agora, qualquer prova apresentada por eles contra Trump e os republicanos seja vista como mentira. Não se trata aqui da conhecida fábula do pastor e do lobo. Estamos submersos em um mundo de tamanha manipulação tecno-psicológica que o que menos chama a atenção e o que menos convence são as verdades, que se tornam opacas diante do brilho psicodélico das falsidades. Para serem compreendidas, tais verdades exigem algum grau de esforço intelectual e espiritual, algo que nestes tempos é cada vez mais escasso.
A cultura ocidental idolatra o sucesso, idealiza a riqueza, sempre perdoa os excessos dos "vitoriosos" e se declara defensora de direitos, embora em seu cotidiano comercialize a hipersexualização infantil, desprezando direitos, emoções e até instintos.
O que são os arquivos Epstein e por que são uma bomba-relógio para as elites
Epstein foi um peão no xadrez mundial das corporações. Com suas redes, colaboravam monarquias, organismos da ONU e grandes formadores de opinião de todos os matizes políticos.
Isso já era sabido, mas a grande imprensa mundial guardava silêncio. Tal fato explica-se facilmente pelo receio de processos judiciais, pela dependência de anunciantes, entre outros fatores. Além disso, um jornalista rebelde e honesto, mesmo na mais democrática das democracias, sabe que, no melhor dos cenários, arrisca o emprego e a carreira. O caso Epstein não expõe a "maldade das elites", mas o funcionamento normal de um sistema no qual o poder protege o poder, os meios de comunicação controlam a opinião pública, a cultura popular justifica seus ídolos bem-sucedidos e as crianças são mercadoria de consumo.
Essa monstruosidade é banal, repetitiva e reproduzível.
O famoso filme do diretor de cinema italiano Pier Paolo Pasolini, "Saló, ou os 120 dias de Sodoma", não trata de perversões, como a maioria pensa.
É um retrato do poder do capitalismo, aquele que sempre sofre mutação para o fascismo, onde as elites se enclausuram em um espaço oculto, as pessoas são reduzidas às funções exigidas pela autoridade e a violência é naturalizada. O poder fascista é representado pelo duque, pelo bispo, pelo magistrado e pelo presidente, os quais refletem distintas faces da decomposição do sistema. Pasolini mostra a total perversão dos valores morais proclamados como o único caminho desta sociedade falsa e hipócrita, que nega e despreza qualquer lampejo de uma espiritualidade verdadeira.
Em "Saló", temos uma vila, a segurança, a desconexão do mundo exterior e a impunidade absoluta. No caso de Epstein, trata-se de uma ilha privada, aviões, mansões, brechas legais e tudo o mais, o que coincide até nos mínimos detalhes. A normalização rotineira do horror em "Saló" realiza-se por meio do jantar, da história, do castigo e, novamente, do jantar. No caso de Epstein, ocorre por meio das massagens, dos pagamentos, dos presentes, dos voos e da repetição dos atos. Em ambos os casos, as violações não passam de um procedimento administrativo ritual.
A estetização do crime é uma arma à parte: a música, a cortesia, os ambientes ordenados e distintos, as conversas intelectuais em "Saló"; e a caridade, as universidades, a filantropia e o glamour no caso Epstein. Tudo obedece a um único objetivo: fazer com que o pesadelo pareça decente e aceitável para que nenhum dos espectadores sensíveis, Deus não o permita, indigne-se antes da hora. É fundamental que, em ambos os casos, as elites atuem de forma coletiva e não como indivíduos. Em "Saló", não existe um principal culpado, tal como no caso Epstein, no qual também é evidente que o financista estadunidense não poderia agir sozinho. Milhares de poderosos o encobriam, usavam e aproveitavam-se dele enquanto foi possível, isto é, até sua morte, quando a responsabilidade dos demais se diluiu.
Muitos classificaram o filme "Saló" como insuportável. O problema é que Pasolini deu nome aos bois, enquanto a realidade do caso Epstein está inundada de eufemismos: "relações inapropriadas", "contatos controversos", "acusações" e termos afins. O filme de ficção de 1975 expõe melhor as notícias de hoje. Mesmo em sua época e nas décadas seguintes, esse filme, apesar de não possuir nenhuma cena explícita, escandalizava as mesmas gerações consumidoras de Playboy e pornografia, moralistas hipócritas que se viram retratados nas cenas da obra.
A analista colombiana Ana Lucía Calderón compara esta história com outra, a do bairro de Bronx, no centro de Bogotá, ocorrida há dez anos. Quando o Exército entrou no Bronx, viram-se praticamente as mesmas realidades descritas nos expedientes do caso Epstein: prostituição infantil, tráfico de drogas, escravidão, torturas, assassinatos, horror total. Tudo, como sempre, sob o controle do crime organizado a serviço dos poderosos, por sua vez controlados pelo poder supremo, grupos oligarcas, os três poderes do Estado e seu eterno aliado estratégico: o governo dos EUA.
Após uma descrição da natureza e da semelhança entre ambos os casos, Calderón conclui: "...ninguém está vendo o pano de fundo que este tema traz consigo. Após exporem nos meios de comunicação, dia e noite, horrores e sofrimentos, da mesma forma que fizeram com os bombardeios em Gaza, com restos mortais espalhados por toda parte, em um par de semanas a população anestesiada já não reage mais. Isso é o que é verdadeiramente aterrador. Legitima-se o crime, o extermínio, o saque, a violação. Não há alteração social, pois as jovens se anunciam no Instagram para ir à Arábia Saudita ou aos Emirados Árabes para orgias. As redes estão repletas de moças convidando outras, contando experiências que "valem a pena" porque recebem muito dinheiro. Tudo é falado abertamente, ninguém sente vergonha de expor sua intimidade nas redes, mas sente de olhar nos olhos de outra pessoa e segurar sua mão. Revela-se tudo isso quando já não haverá repercussão popular nem qualquer censura moral. Isso já não assombra ninguém, assim como a política de violação da soberania nacional. Simbolicamente, a violação de uma pessoa ou de um povo dá no mesmo e compensa-se com dinheiro. Há de se acostumar. Esse é o mundo que construímos, graças à inexistência de outra opção coletiva da fantasia."
Temo que qualquer outra leitura desta realidade abra as portas para um pesadelo muito mais generalizado e, desta vez, irreversível. Jeffrey Epstein segue vivo e, da tranca do inferno, continua observando, satisfeito, nossa ignorância e indiferença.
A RT Brasil esforça-se para apresentar um amplo espectro de opiniões. As contribuições de convidados e os artigos de opinião não necessariamente refletem os pontos de vista da equipe editorial.


